Resumo: Este estudo tem como objeto de análise sete charges jornalísticas do jornal Zero Hora que circularam na época da realização do Referendo do Comércio de Armas (RCA), até 23 de outubro de 2005, no Brasil. O objetivo será o de, partindo da materialidade constitutiva do discurso, apreender, na relação entre dizeres, entre discursos, como se vai construindo processos de significação em determinadas condições de produção para responder a seguinte questão: como se constrói o efeito humorístico nas charges? Para isso, a Análise de Discurso francesa enquanto disciplina que trabalha no entremeio das diferentes áreas de conhecimento a saber: Lingüística, Materialismo Histórico e Psicanálise, possibilita a mobilização de uma rede de noções teórico-metodológicas que auxiliam para uma nova forma de fazer leitura(s). Dentre elas, a noção de formação discursiva (Pêcheux, 1997a), imprescindível para refletir sobre a institucionalização dos sentidos do discurso jornalístico (Mariani, 1998). Trata-se, enfim, de uma proposta de interpretação de charges.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Referendo do Comércio de Armas; discurso jornalístico; charges; interpretação.
Abstract: This study charges propagated in the periodical has as analysis object seven Zero Hora when of the accomplishment of the Countersignature of the Commerce of Weapons (RCA), in 23 of October of 2005, Brazil. The objective will be of, leaving of the materiality of these texts, to apprehend the relation between speeches, as the speech goes constructing processes of signification in determined production conditions. For this, the French Analysis of Speech while it disciplines that it works in it I lard namely of the different areas of knowledge: Linguistics, Historical Materialism and Psychoanalysis, make possible the mobilization of a net of slight knowledge theoretician-metodologics. Amongst them, the notion of discursive formation (Pêcheux, 1997a), essential to reflect on the institutionalization of the directions of the journalistic speech (Mariani, 1998). It is treated, at last, of a proposal of interpretation of charges.
Key-words: Analysis of Speech. Countersignature of the Commerce of Weapons; journalistic speech; charges; interpretation.
INTRODUÇÃO
“Problematizar as maneiras de ler...” (Orlandi, 2001), este talvez seja o objetivo maior da Análise de Discurso[1] francesa, que tem a teoria semântica do discurso de Michel Pêcheux como fundadora. Partindo dessa problematização dirigida ao gesto de ler é que propomos uma abordagem discursiva para a interpretação de charges, textos estes que relacionam o verbal e o não-verbal intrinsecamente. Além disso, podemos refletir sobre as práticas atuais de leitura de textos em sala de aula que desconsideram o não-verbal, enfim, as imagens, ou consideram-nas enquanto tematizações, figurativizações ou ilustrações de conteúdos de maneira geral. Em nossa abordagem a charge será considerada enquanto texto que relaciona o verbal e o não-verbal constitutivamente, ou seja, o processo de construção de sentidos se dá no embricamento da imagem e da escrita simultaneamente e indivisivelmente.
Para tanto, uma rede de noções será mobilizada para que possamos chegar à compreensão do processo de construção dos efeitos de sentido no discurso jornalístico sobre o Referendo do Comércio de Armas (adiante RCA), tais como condições de produção e formação discursiva.
1 O verbal e o não-verbal em diferentes tendências de estudos da linguagem
Uma das questões colocadas para a realização deste estudo foi a problemática dos diferentes modos de trabalhar com o verbal e o não-verbal em diversas tendências de estudos da linguagem e, conseqüentemente, a inscrição desse estudo na Análise do Discurso francesa (adiante AD). De modo geral, faremos referência ao modo diferenciado de trabalhar com textos que relacionam imagem e escrita no olhar de diversas teorias e chamamos o leitor a questionar as maneiras de se trabalhar a leitura em sala de aula.
Na teoria semiótica greimasiana, em Barros (2000), encontramos um estudo que mostra o que se entende por texto e como se considera o verbal e o não-verbal. Nesta perspectiva, o texto é um todo de sentido e o que vai interessar é o que o texto diz (descrição) e como ele faz para dizer o que ele diz (explicação). A autora coloca, ainda, que existem procedimentos semânticos do discurso em que “Tematizar um discurso é formular os valores de modo abstrato e organizá-los em percursos” e “Pelo procedimento de figuritivização, figuras do conteúdo recobrem os percursos temáticos abstratos e atribuem-lhes traços de revestimento sensorial”. Assim, texto é objeto de significação (análise interna) e também objeto de comunicação (análise externa). Na prática, observamos análises de tiras de Mafalda, na página 69 da obra, através da descrição e a transcrição das falas dos personagens (sem as imagens), sendo que o que se coloca é uma justificativa para o fato dessas “piadas”, marcadas pela “graça do chiste”, apresentam uma quebra da coerência e daí emana outra leitura, ou seja, trabalha-se com um percurso gerativo de sentido restrito ao plano do conteúdo.
Em uma teoria da comunicação, aqui representada por Aguiar (2004), apresenta-se uma proposta de reflexão sobre linguagens e representações. As análises de variadas materialidades colocam a importância da comunicação através do conhecimento do meio físico, organização e funcionamento em função de uma identificação com grupos humanos com aspirações comuns. A linguagem, portanto, é uma necessidade humana de comunicação e na relação entre os atores (sujeitos) que atuam nesse cenário, a ideologia funciona como um falseamento da realidade. Através do esquema comunicacional nesta tendência de estudo consideram-se as funções da linguagem. Nessa perspectiva, o riso pelo chiste seria uma alusão burlesca, algum disparate, ou seja, o que contém duplo sentido (ambigüidade).
Em Souza (1998) encontramos um estudo do discurso e imagem em análises de textos jornalísticos em Análise de Discurso e a autora coloca que: “O estudo da imagem, como discurso produzido pelo não-verbal, abre perspectivas comumente não abordadas nas análises mais recorrentes. Abre-se a possibilidade de entender os elementos visuais como operadores de discurso, condição primeira para se desvincular o tratamento da imagem através da sua co-relação com o verbal e de se descartarem os métodos que "alinham o verbal pelo não-verbal.” Nessa perspectiva discursiva, que ora nos inscrevemos, o que se considera é o gesto de interpretação, ou seja, o modo de (não) se dizer o que (não) se diz. Ou seja, podemos observar daí o atravessamento dos discursos nos deslizes da linguagem.
Machado (2000) em especial vai trabalhar com a análise de charges políticas e lança um novo olhar sobre este objeto de estudos:
“Deste modo, analisando o funcionamento desse espaço discursivo, seguimos alguns princípios norteadores como a equivocidade discursiva, sua relação com o surgimento do diferente e com efeito de sentido humorístico, juntamente com a observação das posições de sujeito manifestadas nas [...] charges analisadas” (MACHADO, 2000, p. 103).
Se em outras tendências de estudo o humor é tratado enquanto ambigüidade, falta de coerência, ou imposição de leituras, em AD entendemos a equivocidade discursiva como constitutiva do seu efeito humorístico. A ironia, tão presente nas charges, expõe a dispersão dos sentidos diferentemente de sua pretensa completude. Esta dispersão marca a relação entre o mesmo e o diferente, uma ruptura de significação. Através desses aspectos é que analisaremos as charges jornalísticas sobre o RCA, focalizando o equívoco e a não-transparência dos sujeitos/sentidos. No dispositivo de análise consideraremos não somente o percurso conteudístico, mas o processo de construção dos sentidos sempre nos perguntando como os textos constroem determinados sentidos e não outros. Partindo do dito (intradiscurso) somos levados ao não-dito (interdiscurso, memória discursiva) no âmbito da(s) formação(ões) discursiva(s), ou seja, apreendemos a instauração de um sentido outro que pode ser apreendido pelo gesto de interpretação marcados histórico e ideologicamente.
3 As condições de produção do discurso
De modo geral, faremos a explanação das condições de produção do discurso. Lembramos que esta noção funciona em rede com as outras noções da AD que ora são mobilizadas para este trabalho. O termo condições de produção apresenta diferentes concepções nas diversas tendências de estudos. Em outros campos, a noção é tomada enquanto contexto, isto é, os elementos externos ao texto servem para ampliar sua significação global. Em uma situação comunicativa se falaria em situação e circunstâncias que permeiam os dizeres, ou seja, em referencialidade (pragmática). Diferentemente do modo como é tratada a noção de condições de produção em outras linhas, ela traz consigo uma trajetória de legitimação no trabalho da AD.
No início dos estudos a noção de condições de produção em Pêcheux, na AAD-69, foi definida como determinadas circunstâncias de um discurso em que se colocam em jogo as relações de força, as relações de sentido e o jogo de antecipações em uma interlocução – contrariamente ao que ocorre através do esquema informacional da comunicação, o de Jakobson, por exemplo (PÊCHEUX, 1997b, p. 72). Afirma-se que o discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas, tendo em vista os lugares sociais que são constitutivamente históricos e determinados pelas relações sociais. Esses lugares sociais não seriam dados a priori, mas construídos e representados no processo discursivo através das formações imaginárias.
Com base na noção de formação imaginária o sujeito locutor tem uma imagem de si, de seu interlocutor, da imagem que o interlocutor faz de si, do objeto do discurso, isto é, tanto A quanto B mergulham nas formações imaginárias que compartilham. O sujeito locutor poderá, a partir disso, antecipar as representações do imaginário do outro e produzir seu discurso.
Pêcheux (1997b, p. 81-3) define esses lugares como espaço de representações sociais constitutivas do processo de significação discursiva colocados em jogo em contraposição a um “feixe de traços objetivos”. Nesse processo se colocam protagonistas não individualmente, mas na representação de lugares (que atribuem, a si e ao outro, a imagem do seu lugar e do lugar do outro) numa determinada formação social (capitalista no caso) e o referente como um objeto imaginário em condições históricas na produção de um discurso. Então, exterioridade e interioridade não se separam, pelo contrário, relacionam-se simultaneamente. Apreender esse movimento dos sentidos/sujeitos significa compreender que a linguagem está sempre sujeita a falhas e deslizamentos. Portanto, as condições de produção não são os filtros ou os freios que interferem no funcionamento da linguagem, mas fazem parte de um processo social e sua base tem materialidade lingüística.
Conforme Orlandi (2001, p. 30), as condições de produção compreendem os sujeitos, a situação e a memória que fazem parte da exterioridade lingüística e (sub)dividem-se em condições de produção de sentido amplo (contexto sócio-histórico-ideológico) e estrito (enunciativo, contexto imediato). Portanto, para a AD, as condições de produção não compreendem somente as circunstâncias imediatas, nem o papel dos indivíduos colocados em jogo, ou o lugar definido por referências, ou a situação de fala, mas a lugares historicamente constituídos e construídos, de onde falam sujeitos interpelados pela ideologia e afetados pelo inconsciente (modo de assujeitamento da AD).
Portanto, as condições de produção regem a interpretação por terem enquadramento em uma conjuntura histórica e política constitutivamente, o que faz com que os sujeitos mobilizem uma memória (outros sentidos e discursos já-ditos) dentro de uma interdiscursividade (relação entre discursos através da relação de um complexo de formações discursivas), pois na AD não se acredita em um discurso inaugural (o mito de Adão, por exemplo), e o analista, então, é aquele que retém pontos de vista sobre uma época no momento de suas análises.
As condições de produção do discurso jornalístico têm relação com diversos fatores, sobretudo, por estar amplamente inserido na ideologia do capital (formação social capitalista já mencionada), e, nesse sentido, contar com jornalistas que seguem regras e padrões de escrita e com leitores dotados de poder aquisitivo e vontade de compra (os leitores do jornal Zero Hora, por exemplo). Portanto, o trabalho realizado diz respeito a um conjunto determinado de relações e de “atores sociais”.
Para Mariani (1998) o discurso jornalístico seleciona e recorta acontecimentos a fim de que sejam recordados no futuro e isso se torna também um modo possível de recordação do passado. Por esse e outros aspectos o discurso jornalístico é o retrato de uma época. O sujeito jornalista pela sua coleta jornalística é aquele que mobiliza vozes/lugares/discursos para sustentar dizeres institucionalizados enquanto testemunha ocular de sua época. Desta forma, o discurso jornalístico tende à coerção também e pode tornar gerais os interesses particulares.
Então, as condições de produção do discurso não restringem a análise a referencialidade do texto, muito menos estabiliza os sentidos. Em se tratando de charges, podemos dizer que há mais que a subversão dos sentidos, relacionando à questão do humor. Podemos dizer que estamos diante daquilo que em AD chamamos de jogo do equívoco e que mostra o caráter heterogêneo da língua, expondo que a linguagem está sempre aberta e que podemos apanhar apenas um fechamento necessário e provisório (efeito de fechamento) do movimento dos sentidos, e que também põe em evidência a falha e as múltiplas interpretações que a linguagem pode construir. Por isso, a leitura de uma charge não pode ser e não é nunca linear, ela é fragmentada no sentido de propor direções de leitura determinadas. Dessa forma a questão do humor surge aí como uma forma de (des)controle, abrindo da possibilidade de se dizer e de não dizer.
Pêcheux (1997a, p. 167) fala do efeito sujeito, do ponto em que há identificação do sujeito consigo mesmo e com o outro (ego): “A unidade (imaginária) do sujeito, sua identidade presente-passada-futura encontra aqui um de seus fundamentos” e do efeito de intersubjetividade nas relações de sentido da formação discursiva (noção que será trabalhada adiante). Afirma, então, que na relação do sujeito consigo e com o outro e com a marca do inconsciente como discurso, o Outro na enunciação, se observa a tomada-de-posição do sujeito:
[...] a tomada de posição resulta de um retorno do “Sujeito” no sujeito, de modo que a não-coincidência subjetiva que caracteriza a dualidade sujeito/objeto, pela qual o sujeito se separa daquilo de que ele “toma consciência” e a propósito dos que ele toma posição, é fundamentalmente [...] O “desdobramento do sujeito” – como tomada de consciência de seus objetos – é uma reduplicação da identificação, precisamente na medida em que ele designa o engodo dessa impossível construção da exterioridade no próprio interior do sujeito (Pêcheux, 1997a, p. 172).
Nesse espaço de igualdades e diferenças, por exemplo, é que se instaura o gesto (que sempre pode ser outro) como prática significante (Pêcheux 1969, simbólico) “que traz em si tanto a corporalidade dos sentidos quanto a dos sujeitos, enquanto posições simbólicas historicamente constituídas, ou seja, posições discursivas (lingüístico-históricas)” (ORLANDI, 2004, p. 27). Os sentidos deslizam para outros, sujeitos relacionam-se a outros simultaneamente. Nesta relação também se considera a questão da leitura, da determinação do leitor imaginário, no caso o leitor de Zero Hora.
Desde 1999, quando iniciou a Campanha pelo Desarmamento promovida pelo Estado, em que os cidadãos “de bem” deveriam entregar/vender suas armas para que fossem trocadas em postos de recolhimento da Polícia Federal, muitas instituições (igrejas, ONG’s, imprensa) empenharam-se em construir sentidos tanto para a nocividade quanto para a utilidade das armas de fogo e da munição na contemporaneidade. Também, neste ano, um Projeto de Lei do Senado deu origem ao Estatuto do Desarmamento e por desdobramento à proposta do Referendo nacional. Por um decreto legislativo aprovado em 2003 se gerou o Referendo e se dividiram as Frentes Parlamentares do Sim e do Não para organizar campanhas de esclarecimento aos eleitores pela mídia. A pergunta formulada para o Referendo foi: O comércio de armas e munição deve ser proibido no Brasil?
Nesse contexto, este estudo parte da leitura de sete charges recortadas do jornal Zero Hora que circula no Rio Grande do Sul no período que antecede o Referendo do Comércio das Armas, mais conhecido como Referendo das Armas, no Brasil. As referidas charges foram veiculadas de junho a outubro do ano de 2005 e tiveram como temática o processo de convencimento do leitor-eleitor para a consciência de voto pelo Sim ou pelo Não no RCA. A partir da materialidade desses textos, tentamos compreender como eles fazem para construir efeito humorístico.
Diferentemente de uma eleição para eleger representantes governamentais, um referendo trata de uma prática de votação que decide sobre uma temática social. Nesse processo “democrático”, os partidos políticos, os sindicatos, as associações, as comunidades de base e principalmente a imprensa ganham espaço para coordenar e expressar a vontade popular no que se refere a seus anseios e reivindicações, no que se refere ao pensar o útil e o nocivo para todos e para que se estabeleça uma parceria entre a representação política e a sociedade civil, funcionando mais ou menos como um mecanismo de interlocução entre representante e representado. Podemos dizer, então, que uma sociedade civil que vive de leis e de liberdades prioriza também a individualização. Compreender o processo de implementação das leis ou de parte delas se faz produtivo para apreender os efeitos do discurso jurídico no discurso social, pois as leis tendem a acompanhar a conjuntura social e não o contrário.
Por ser o RCA uma decisão prevista pelo Estatuto do Desarmamento, observa-se aí o processo da determinação de sentidos que tem a mídia como seu ponto de apoio-veiculação da/na discussão. A campanha do Governo no RCA dividiu duas frentes parlamentares. Cada uma delas – a Frente Parlamentar por um Brasil sem Armas e a Frente Parlamentar pelo Direito da Legítima Defesa – empenhou-se em apresentar um discurso de esclarecimento que se aproximasse mais do leitor-eleitor, de modo a conduzi-lo a pensar sobre a sua “realidade”, sobre os problemas sociais e, principalmente, apelou para a sensação de medo e perigo gerado pela falta de segurança pública, sempre presente nos discursos urbanos e nos sentidos públicos. Aqui não será trabalhado o conteúdo das campanhas do Estado, mas apenas serão referidas por fazerem parte de uma exposição na mídia que antecedeu o Referendo do Comércio de Armas e por estarem refletidas no discurso jornalístico. Esse poderia ser outro corpus de análise.
Durante as campanhas, muitas pesquisas apontavam a aprovação do comércio de armas por larga margem. No dia 23 de outubro de 2005, os eleitores compareceram às urnas para decidir sobre a supressão ou não do Artigo 35 do Estatuto do Desarmamento. Com 63,94% contra 36,06%[2] dos votos o cidadão eleitor optou pela manutenção do comércio de armas de fogo e munição em todo o território nacional, o que atestou uma inversão das preferências captadas pelas pesquisas dos últimos tempos.
Portanto, o discurso jornalístico sobre o RCA diz respeito a prática social - o voto -, por exemplo, e a prática discursiva simultaneamente. É um discurso que determina sentidos, um discurso institucionalizado. A esse respeito, Mariani (1998) comenta que quando tomamos os discursos sobre tomamos como objeto aquilo sobre o que se fala e, então, temos um discurso que atua na constituição de um imaginário social, que está sempre ligado a uma memória e a um futuro memorável. Nesse sentido, podemos entender que o discurso constrói a atualidade, isto é, um futuro e um passado presentificados.
4 A formação discursiva
As condições de produção constituem o processo de apreensão de determinados sentidos em movimento. Podemos dizer, então, que em determinada conjuntura histórico-ideológica há uma rede de sentidos a serem observados. Essa apreensão provisória do movimento dos sentidos pode ser compreendida através do funcionamento da noção de formação discursiva.
Foi em Michel Foucault que o termo formação discursiva foi significado. De posse dos pressupostos que o autor utilizou para teorizar o discurso, mesmo que situado em outro quadro epistemológico, Pêcheux (1997a) (re)significou essa noção. Nesse sentido, retomar a trajetória de categorização dessa noção é compreender como a formação discursiva envolve regularidades e instabilidades dos sentidos de maneira dialética no discurso, especificamente no discurso jornalístico. Portanto, ao articular as diferentes perspectivas da noção estamos envolvendo um diálogo entre a interioridade e a exterioridade, inter e intradiscurso, entre a noção de formação discursiva, memória e história.
Na contrapartida de Foucault (2005), a formação discursiva serve para pensar o político, pois insere aí o ideológico (não-neutralidade). Uma formação discursiva é aquilo que numa formação ideológica dada (posição, conjuntura), determinada pela luta de classes, determina “o que pode e deve ser dito” (PÊCHEUX E FUCHS, 1997, p. 166) e “o que não pode e não deve ser dito” (COURTINE, 1981, p. 49). Portanto, a formação discursiva deriva de determinadas condições de produção e existe historicamente. Num segundo momento, decorrente de reflexão discursiva, a formação discursiva passa a comportar diferentes posições-sujeito que geram a contradição e a igualdade, caracterizando a sua heterogeneidade e da posição-sujeito, em que há a presença da diferença e da divergência no interior da mesma formação discursiva e que caracteriza a fragmentação do sujeito.
Em Pêcheux (1997a, p. 162) o interdiscurso é o “’todo complexo com dominante’ das formações discursivas”, sendo ele também submetido à lei de desigualdade-contradição-subordinação que caracteriza o complexo das formações ideológicas. Portanto, a heterogeneidade é característica marcante do interdiscurso. Podemos, então, depreender disso o interdiscurso e o intradiscurso (nível da formulação) enquanto elementos relacionados e o caráter da forma-sujeito que se identifica com a formação discursiva é que “simula o interdiscurso no intradiscurso”. Este sujeito do saber, universal e/ou histórico pode ser responsável pela ilusão de unidade do sujeito. A questão da forma-sujeito para a AD é a maneira pela qual o sujeito se identifica com a formação discursiva que o constitui e se dá quando o sujeito retoma os elementos do interdiscurso que o determinam e o colocam em determinada posição no discurso.
Pêcheux traz da Psicanálise para o discursivo a (re)significação da questão da determinação do sujeito do discurso e aciona a noção de pré-construído (o estranho-familiar de Freud) na relação entre elementos do interdiscurso: “Os traços que permitem determinar o sujeito no discurso dependem do pré-construído (sempre-já-aí, universal) e do processo de sustentação (articulação, discurso-transverso)” (1997a, p. 163) e, portanto, em determinada formação discursiva, cujas margens “porosas” não permitem a estabilização dos sentidos, podemos trabalhar com a forma-sujeito que, no caso da temática em questão se estabelece a relação com a defesa do direito à vida (com ou sem armas).
Esse efeito de universalidade através do pré-construído configura a relação interdiscursiva, e o efeito de linearização do discurso se dá através das relações intradiscursivas. Então, através do discurso-transverso é que o pré-construído se apresenta enquanto algo “naturalizado” discursivamente.
O interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito-falante”, com a formação discursiva que o assujeita (PÊCHEUX, 1997a, p. 166-7).
Portanto, Pêcheux faz compreender que não há como separar o estudo da língua do de suas condições de produção, por dizerem respeito a uma relação histórica e ideológica. Nesse processo de tomada-de-posição do sujeito na formação discursiva podemos pensar o desdobramento do sujeito, ou seja, a dissimulação do assujeitamento que corresponde à relação entre pré-construído e articulação ou efeito-transverso que constitui o sujeito em sua relação com o sentido, isto é, representa no interdiscurso aquilo que determina a dominação da formação ideológica.
Com base na noção de formação discursiva heterogênea em relação a si mesma e em relação às outras formações discursivas se observam as relações entre interdiscurso e intradiscurso. Para que isso seja possível faz-se importante pensar no “interdiscurso como espaço de acolhimento do mundo factual discursivizado”, segundo Dorneles (2005), constituindo-se em um observatório dos movimentos de sentidos/sujeitos através de lugares sociais instituídos na formação social. Para a autora, a formação social capitalista apresenta saberes que são regulados por códigos, manuais de comportamento, condutas tradicionais, práticas que simbolizam o social e que são recortados e acolhidos em determinada formação discursiva pelo movimento do interdiscurso sobre si mesmo, cujo assujeitamento pressupõe sua preexistência: “Esse grande conjunto de saberes, o interdiscurso, traz as formações sociais discursivizadas para o processo de assujeitamento. Da formação social é dado observar a realidade. É na formação social que os processos discursivos depositam transitoriamente seus efeitos”.
A formação social dá a reconhecer lugares sociais discursivizados e constituídos sob a dominância de diferentes formações ideológicas. Portanto, o interdiscurso articula e é articulado na formação discursiva, vale dizer, é articulação de dizeres diante de outros dizeres em suas diversas relações de sentido. Na movimentação que vai da identificação à desidentificação (efeito de dissenso) com a forma-sujeito, a ideologia funciona às avessas, sobre e contra si mesma, sem, no entanto, implicar a morte/desaparecimento do sujeito, pois ele nunca será neutro ou indiferente ideologicamente. O que ocorre é um deslizamento para outra formação discursiva ou forma-sujeito (historicamente determinada), e nunca seu apagamento.
Assim, cada uma dessas posições-sujeito, nomeadas como a posição-sujeito jornalística-Sim e a posição-sujeito-jornalística-Não, relaciona-se, por diferentes modos de dizer, com a temática em processo sem se desidentificar totalmente com os saberes da formação discursiva, mas com discordâncias. De um modo o sujeito do Sim defende a vida sem armas e o sujeito do Não tende a defesa da vida através da manutenção do direito de defesa e de propriedade de armas de fogo e munição da legalidade. Cada uma dessas posições-sujeito, consideradas as condições de produção, funcionam em ressonância de significação (SERRANI, 1993).
Através da diferença de modos de dizer em ressonância no discurso jornalístico sobre o RCA, podemos perceber que não há somente diferenças, mas que a contestação aponta para a divergência, o que pode levar, não fosse a relação das posições-sujeito com a forma-sujeito da Formação Discursiva Jornalística do Direito à Vida, a relação entre mais de uma formação discursiva. Portanto, as posições-sujeito aqui analisadas apresentam relação de tensão na luta pelo espaço da formação discursiva.
5 A construção dos sentidos nas charges
As charges, nesse contexto, permitem articulações intradiscursivas e relações interdiscursivas, ou seja, o sujeito enunciador convoca em seu discurso outros discursos como será apresentado nas análises.
CHARGE 1 – A contestação no discurso jornalístico sobre o Referendo das Armas
Na época em que foi veiculada esta charge estava sendo organizadas as campanhas pelo Sim e pelo Não no Referendo. Não nos deteremos no conteúdo das campanhas, mas os argumentos estavam sendo construídos em oposição para tentar convencer o cidadão-eleitor de uma posição eleitoral ideológica dada.
A charge 1, de Marco Aurélio, de 12 de junho de 2005, traz a imagem de um posto de coleta de armas para a Campanha do Desarmamento promovida pelo Estado desde 1999, onde aparece a placa na parede com a escrita ‘TROQUE AQUI A SUA ARMA’. Do outro lado da mesa, um cidadão vestido com paletó, de olhar parado e nariz de palhaço.
A escrita da placa na parede caracteriza o local onde os cidadãos deveriam trocar as armas por estas oferecerem riscos às famílias, as quais seriam destruídas posteriormente. Diferentemente desse ato, na fala exclamativa do atendente, também vestido com paletó e gravata: “É seu título de eleitor!”, mostra-se o momento em que há o congelamento provisório dos sentidos, lugar da interpretação. Relacionam-se, então, o intradiscurso, a materialidade do texto, ao interdiscurso, outro discurso (cidadão e cidadão-palhaço) é convocado a dar sentido na relação com o discurso jornalístico. O nariz de palhaço possibilita articulação que funciona como discurso transverso e que põe em relação sentidos e sujeitos.
Através das relações entre os interlocutores descritas acima, na relação das imagens e dos movimentos sutis dos sentidos o nariz de palhaço relaciona-se a entrega do título de eleitor no lugar da arma. Nesse contexto, podemos relacionar armas de fogo (objeto nocivo à família) e título de eleitor como arma (voto) - “A sua melhor arma é o voto” como ressoa do senso comum. O eleitor, ao invés de uma arma, estava entregando/trocando seu título de eleitor para ser destruído, ou seja, estaria entregando seu direito de voto no lugar, como argumentava o discurso do Não, pela manutenção dos direitos à vida e à propriedade de armas e munição, no caso.
Nessa época, o que se retratou no Jornal foi a indignação da população para com a proposta do Referendo e sua inutilidade do ponto de vista econômico e moral como forma de enganar o eleitor. O RCA foi dito como estratégia para tirar o foco de outros problemas que estariam acontecendo e como termômetro eleitoral de aprovação do atual Governo. Dentro das possibilidades de leitura, e pelo ato de entrega do título/arma de fogo, podemos dizer que as armas de fogo e títulos de eleitor foram construídos como nocivos e úteis ao mesmo tempo.
Nesse cenário a violência urbana e a insegurança nacional como pré-construídos e se constroem sentidos para a solução desses problemas com ou sem direito de compra de armas de fogo e munição pelo ‘cidadão de bem’. A ironia, na ruptura dos sentidos, serve à contestação de práticas sociais e o efeito humorístico está na consideração de sentidos não únicos para o texto.
CHARGE 2 – O discurso político e o discurso jornalístico sobre o Referendo das Armas
A charge 2 foi veiculada em 17 de setembro de 2005, quando ficou decidida no Congresso Nacional a data do Referendo.
Em setembro de 2005 estávamos no auge das denúncias de corrupção no Governo e renúncia do Deputado Roberto Jefferson, que denunciou outros políticos por desvio de dinheiro público. O fato de tirar a guilhotina do Congresso e entregá-la à Polícia tem a ver com a impunidade que se instalou no país, ou seja, as denúncias que passaram em branco. Antes mesmo de serem cassados os deputados acabavam por renunciar. Momento este marcado de forte tensão política no Governo. Podemos destacar, entre outros, a denúncia dos esquemas de desvio de verbas públicas chamados `Mensalão’, escândalo dos dólares na cueca e em malas; `Mensalinho’, concessão de restaurantes do governo; a `Máfia do apito’, desvio no futebol brasileiro.
Esta charge, também de Marco Aurélio, mostra um posto de troca de armas de fogo da Polícia Federal quando da Campanha do Desarmamento nacional. Logo na porta, encapuzada (podendo ser qualquer um), uma pessoa de costas puxando uma guilhotina ensangüentada andando em direção à porta de entrada da Polícia Federal. Na guilhotina está identificado o nome Congresso Nacional. A guilhotina, assim, sendo entregue à Polícia, seria uma arma de posse do Congresso Nacional e pode remeter à expressão ‘cabeças vão rolar’, ou seja, a guilhotina foi entregue enquanto arma utilizada no Congresso para punir culpados. Esta ‘arma’ que está sendo entregue à Polícia Federal.
A guilhotina, na contemporaneidade, nos remete aos tempos das punições promovidas pelos Poderes de governo com a morte por decapitação - no Brasil Colônia, por exemplo. A possibilidade de existir a guilhotina na contemporaneidade remete a uma memória do passado em que serviria como arma para banir aquele que comete algum mal social ou representasse ameaça ao poder vigente. Como este suposto político entregou o instrumento de punição se coloca a presença da impunidade.
Como na charge 1, aqui está sendo entregue uma outra arma ao invés do título de eleitor. Uma arma pertencente ao Congresso Nacional, representada pela guilhotina, que pode ser interpretada como o modo de punição da atualidade e que é promovido pelo poder nacional pela perda de poder ou de cargos por aqueles que não sigam as exigências políticas de uma maioria. A entrega de uma arma do poder maior ao Poder das Forças Militares que também é Federal. Relacionam-se aqui as forças governamentais na demonstração de que precisa haver coerência interna ao Governo.
O efeito humorístico está na descontinuidade dos sentidos, na relação entre discursos, o político e o jornalístico. Estabelece-se a relação entre arma (guilhotina) e a justiça (punição) na política. O equívoco mostra mais que uma brincadeira ou simples contestação, mas mostra uma posição de identificação com determinados dizeres e com determinada conjuntura política.
CHARGE 3 – O discurso jornalístico e as campanhas do Referendo na televisão
Esta charge foi veiculada em 4 de outubro, de 2005, quando iniciavam pelo rádio e televisão as campanhas pelo SIM e pelo NÃO no RCA.
Podemos perceber a presença de uma mulher com uma flor em mãos como sendo a enunciadora na charge. Ao seu redor um operador de câmera e quatro seguranças ao redor (armados) estabelecendo os limites entre essa suposta artista que, pelas condições de produção restritas diz respeito a um artista global que aparece na campanha pelo SIM na mídia e manifestantes ou fãs ao redor.
Quando da adesão de grande parte dos artistas ‘globais’ à campanha do SIM, muito se comentou sobre o modo como esses artistas mantinham sua segurança diante da realidade da violência urbana. Neste sentido, o ator é aquele que figura, que atua, sendo representante da realidade ou sendo pago para representar esta realidade. Mostra-se, portanto, a posição desses sujeitos no discurso: ‘FAÇA COMO NÓS, ARTISTAS! DIGA SIM AO DESARMAMENTO!’. No entanto, no Jornal Zero Hora, que também mostra sua posição, se contesta esse modo de defesa do SIM pelo artista e nos sentidos construídos pela mídia, mostrando seu aparato de trabalho e suas condições de dizer na diferença com as condições da maioria dos cidadãos de bem.
A flor aparece em contrapartida da arma de fogo. Paz e não violência. Coloca-se, através do discurso jornalístico da charge a relação de contestação entre as posições-sujeito SIM e NÃO no Referendo das Armas. Isso faz com que o leitor-eleitor questione os dizeres da campanha para escolher seu voto.
CHARGE 4 – As formações imaginárias no discurso sobre o Referendo das Armas
A charge 3, foi veiculada no auge da argumentação de defesa do Sim e do Não do Referendo e vai apresentar a relação entre sujeitos sociais que são o bandido, o policial e o cidadão de bem.
A cena acima vai mostrar um bandido encapuzado com uma arma na mão. O segundo é um militar representado pelo fardamento e pela arma na cintura e pela ação de abordagem e direito de revista. O terceiro, na seqüência, é um cidadão de paletó escuro e gravata com as mãos para o alto e que está sendo revistado pelo segundo.
Quem está falando é o bandido: ‘Dá uma conferida! Este cara que eu vou assaltá deve estar armado...’ é ele que está rendendo o cidadão ou é a polícia? Esta seria uma primeira pergunta que poderíamos fazer pela textualidade. O que percebemos é uma cena típica da violência urbana que assola a sociedade (vejamos o cenário da charge). O que se está construindo no discurso, então, são sentidos de violência urbana.
Nesta charge, os sujeitos representam as relações de força contraditórias da sociedade contemporânea na formação social capitalista. O bandido, ‘cidadão do mal’, que representa a ilegalidade não está sendo revistado, mas coerentemente ele seria o promotor da violência com armas de fogo; o policial, representante da força e da ordem, de costas para o bandido, aborda o cidadão como se estivesse sendo orientado a isso por ele, e, lembrando, na Campanha do Desarmamento, esse sujeito é o responsável pelo recolhimento das armas como representante do Estado. Ele representa a segurança para o cidadão de bem que, entregando as armas, evitaria acidentes domésticos, também não tendendo a reagir em situações de assalto pelo uso/porte de arma sem preparo para isso.
Por fim, quem está sendo desarmado? É o cidadão de bem, o ‘engravatado’ e não um cidadão de vestes simples, e que foi convocado a entregar sua arma à polícia na Campanha do Desarmamento, portanto, de classe média, se assim podemos dizer, sendo revistado pelo militar que o iria desarmar, se fosse o caso, tirando seu direito de defesa pelo uso/porte de arma de fogo, como argumenta o discurso do Não. O cidadão está sendo revistado pelo mantenedor da lei e da ordem, que facilitaria a ação do bandido (assalto) logo em seguida.
Essa relação de forças contraditória mobilizada pelas formações imaginárias[1] está sendo construída pela mostrar a posição-sujeito-Não, que defende o direito de propriedade do cidadão de armas de fogo e munição na forma de Lei, para sua defesa e de sua família e de seus bens. De acordo com os dizeres deste discurso, se a proibição da venda de armas de fogo e munição for aceita no RCA o Governo estaria ajudando aos bandidos causadores da violência armada a continuarem atuando e aumentando os altos índices da ilegalidade (mercado negro, etc.). O que se coloca é que o Referendo irá decidir se os cidadãos poderão continuar a comprar armas na legalidade, mas isso em nada afetaria o mercado da ilegalidade, que continuaria atuando, ainda de maneira mais facilitada. Portanto, se constrói uma temporalidade, uma previsão de futuro próxima, na charge e que atinge de forma negativa a vida nas cidades com o aumento da violência.
Nesse sentido, o que está em discussão é o mercado da legalidade e não o da ilegalidade. O efeito humorístico está na relação entre sujeitos e sentidos diferentes na charge. Socialmente e ideologicamente se constrói um ideal nas relações entre sujeitos sociais, mas no texto, essas relações projetam um futuro de perigo e desconfiança para o cidadão de bem. O que se contesta é a questão do aceite da proposta do Referendo e a presentificação de um futuro incerto.
CHARGE 5 – O discurso jornalístico sobre e o discurso literário
Esta charge foi veiculada quando se debatia a questão do direito de porte de armas de fogo e munição para esportes e para caça.
A charge 5, de 15 de outubro de 2005, relaciona o discurso jornalístico e o discurso literário para retomar o final do conto de fadas O Chapeuzinho Vermelho, na questão do porte de armas por caçadores.
O cenário da charge mostra a casa da vovozinha de Chapeuzinho Vermelho, mas remete o final da história tradicional. Ao mobilizar o discurso literário atualiza o final da história, constrói um passado presentificado, tendo em vista a possível decisão da proibição do comércio de armas de fogo da legalidade no Brasil. O Lobo Mau aborda a personagem e aponta suas garra afiadas em direção a mesma que está com olhar surpreso em direção ao Lobo.
Ao trazer a história para a atualidade, o discurso jornalístico mobiliza o discurso literário em que os indefesos (Chapeuzinho, neste caso) seria presa fácil do lobo e o caçador nem mesmo poderia defendê-la do predador com arma de fogo, como aconteceu na história.
O efeito de humor está justamente em uma inversão dos sentidos que mostra uma relação às avessas dos sujeitos envolvidos e das práticas sociais. A personificação do Lobo pode remeter, na situação de violência urbana, ao bandido, ao cidadão do mal, descrito na charge anterior. A defesa aqui é mostrada como o argumento do discurso do Não pela manutenção do comércio de armas e munição da legalidade.
O efeito humorístico está na construção da atualidade para uma memória estabilizada de contos de fada, ou seja, há ruptura dos sentidos na relação entre os dizeres do literário em relação ao jornalístico na charge.
CHARGE 6 – O discurso jornalístico sobre e o discurso religioso
Esta charge de Marco Aurélio, de 22 de outubro de 2005, foi veiculada em uma época marcada pela ocorrência dos primeiros ciclones tropicais no hemisfério Sul caracterizado por fortes ventos e que causaram intensas queimadas em matas e reservas florestais.
Na véspera da votação do RCA a mídia divulgou a inversão das expectativas de voto a favor do Não através de novas estatísticas e pesquisas de eleitorais. As duas frentes parlamentares - o Sim e o Não - tentavam ainda angariar o maior número possível de votos. Nessa altura das eleições o que estava em cheque era o direito ao porte/uso de armas de fogo e munição da legalidade.
Nesse contexto, o sujeito chargista mobiliza o discurso religioso pela charge jornalística através da representação de São Pedro, santo dos pescadores e responsável pelas chuvas abundantes e o popular controlador dos fenômenos naturais. A cena aborda a relação céu e Terra. São Pedro está dentro de uma nuvem e empunha um secador de cabelo direcionado a Terra representando um jato de ar quente, característica do ciclone tropical que estava ocorrendo na época. Os dois anjos enunciam “Ele é do NÃO!”, isto é, ele vota Não do Referendo das Armas ao mesmo tempo em que representa a necessidade do direito de propriedade de arma na legalidade. A figurativização do secador pode levar a representação do objeto arma de fogo. Temos um São Pedro no exercício de seu direito de uso/porte de arma na legalidade. Os anjos são aqueles atores que interpretam a posição de voto do santo pelo Não relacionando a suposta ‘arma’ em suas mãos - o secador - a uma arma de fogo.
O efeito humorístico está sendo construído pela transferência e relação de sentidos entre armas (secador/ciclone e arma de fogo) e os fenômenos causados pela natureza que estariam arrasando o hemisfério Sul do planeta e a posição-sujeito-Não no efeito de memória entre história e atualidade. A ironia constrói-se através da imagem e da escrita numa relação constitutiva de significação através da relação entre discursos: o discurso religioso e o jornalístico.
CHARGE 7 – O discurso jornalístico sobre e o discurso sobre o casamento
Esta charge, de Marco Aurélio, foi veiculada no dia da votação do Referendo das Armas no Brasil. Nesta data muito se comentava sobre uma equiparação do número de votos entre as duas frentes parlamentares – a do Sim e a do Não.
A charge 6 apresenta uma cena que retoma sentidos construídos para o casamento. De um lado, o homem com interesse sexual instaurado pela relação de sentido que se constrói pelo toque de sua mão sobre a mulher, no seu olhar e da presença da caixa do Viagra sobre o criado-mudo, ao lado da cama. Nesse momento, do outro lado da cama remetemos a fala da mulher, de cara amarrada, braços cruzados e de olhar virado: “Hoje, NÃO!” incisivamente. Este NÃO pode ser interpretado, se fora das condições do discurso, como a negação da mulher ao marido e remete aquelas desculpas disseminadas como “Hoje não, estou com dor de cabeça, não estou a fim” comum/normal no ‘real’ do casamento (imaginários sociais). Dentro das condições de produção o NÃO refere ao não ao sexo no casamento e, nesta data referida, o NÃO remete também a posição-sujeito-Não de voto no Referendo das Armas. Não ao sexo e Não no Referendo: o efeito humorístico constrói-se na ruptura/relação dos sentidos e dos sujeitos entre o discurso do casamento e o discurso jornalístico sobre o Referendo das Armas.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
As charges, no geral, são tratadas como texto para divertimento pela sua comicidade e ironia. Diferentemente disso, propomos mobilizar um gesto de leitura que não estabiliza os dizeres, mas que os interpreta de modo a mostrarem a relação entre sentidos e sujeitos no discurso jornalístico por meio das ligações e relações estabelecidas em um processo de significação.
As charges, então, através da ironia e da equivocidade (GADET E PÊCHEUX, 2004), permitem pensar na necessária problematização das evidências, no uso de textos enquanto ilustração da situação em que foi produzido, a exemplo de como tem sido utilizada a charge na escola e na necessidade de questionamento das regularidades na linguagem. Faz-se importante, então, tentar mostrar as diferenças e as divergências nas relações entre sujeitos e sentidos através do gesto de interpretação da AD.
O sujeito jornalista produtor das charges trabalha no jogo dos equívocos quando convoca discursos diversos e causa o humor. Efeito aqui está posto para explicar que para além da brincadeira, do divertimento e do riso se constroem sentidos determinados e apresenta-se a contestação. Nessa problematização da evidência subjaz o caráter heterogêneo da linguagem. Esse sujeito jornalista-artista precisa pensar ser dono do seu dizer, podendo jogar com a linguagem ao relacionar sentidos múltiplos de múltiplos e determinados discursos. Ao mesmo tempo isso representa o real da língua e da história nas relações discursivas. Portanto, em seu efeito humorístico, as charges constroem contestações e posições de sujeitos determinados pelas condições de produção, atestando para a construção da atualidade no discurso jornalístico sobre.
Então, ler e interpretar charges requer (re)conhecimento de determinadas condições de produção e relações com a memória discursiva em AD. O humor contido fica posto como mais que brincadeira ou forma de rir, pois trabalha com o real e com a ironia através do atravessamento de discursos. Por isso, a charge mantém relações diretas e indivisíveis com a história e com as relações de força e de sentido (formações imaginárias).
Em sala de aula, não basta recortar uma charge jornalística e analisá-la sob a ótica dos atuais livros didáticos sem referendar suas condições de produção. Esse trabalho de leitura e interpretação torna-se possível através da formação realmente continuada de professores que podem ser leitores observadores e não apenar reprodutores de leituras práticas pré-estabelecidas.
REFERÊNCIAS
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Zero Hora, 2005. Jornal. Datas indicadas nas figuras e no texto.
Texto em construção...
[1] As formações imaginárias têm a ver com a antecipação, as relações de força e de sentido no discurso simultaneamente.

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