Sou professora de português em busca de oportunidades de trabalho.
Hoje procuro oportunidades de trabalho em docência: ensino fundamental, médio, tecnológico ou superior.
Ofereço empenho e dedicação e preciso de sua confiança, caro Empregador.
Atenciosamente,
Carla Letuza Moreira e Silva
Espaço da CARLA LÊ
Por uma leitura conectada ao mundo
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
SOBRE DEFENDER TESE
Hoje resolvi linkar para vocês meu trabalho publicado nos Anais do V SEAD:
http://www.discurso.ufrgs.br/anaisdosead/5SEAD/POSTERES/CarlaLetuzaMoreiraESilva.pdf
Nele eu coloquei as primeiras impressões do corpus de análise da tese, que obviamente vão sendo melhoradas ao longo de minhas leituras e tudo mais...
Gostaria de deixar a sensação que sinto estando próxima de uma defesa de tese de doutorado.
Mas no final... precisa ficar a sensação do dever cumprido...
Uma charge... sobre como estou me sentindo... e o que me espera...
Té mais...
Carla
http://www.discurso.ufrgs.br/anaisdosead/5SEAD/POSTERES/CarlaLetuzaMoreiraESilva.pdf
Nele eu coloquei as primeiras impressões do corpus de análise da tese, que obviamente vão sendo melhoradas ao longo de minhas leituras e tudo mais...
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Mas no final... precisa ficar a sensação do dever cumprido...
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Carla
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
A AD SEMPRE EM (RE)CONSTRUÇÃO
Carla Letuza Moreira e Silva[1]
RESUMO: Falar sobre a Análise de Discurso a partir do seu quadro epistemológico inicial. Este é o objetivo proposto neste artigo. Nesse sentido, refletir sobre as rupturas e os deslocamentos provocados por esta disciplina de entremeio na área de estudos da linguagem faz parte desta tarefa. Partindo dos pressupostos teóricos em M. Pêcheux, propomos alinhavar algumas relações teóricas deste com M. Foucault e M. Bakhtin para tentar mostrar que essa linha de pesquisa permite sempre a (re)construção de seu quadro teórico-metodológico por ter como objetivo promover questionamentos e por isso mesmo estar sempre sujeita a distanciamentos e aproximações teóricas e metodológicas. Portanto, coloca-se a necessidade de conhecer heranças para entender filiações: é imprescindível voltar e (re)ler Pêcheux.
PALAVRAS-CHAVE: Análise de Discurso; linguagem; história; ideologia; inconsciente.
RÉSUMÉ : Parler sur l'Analyse de Discours à partir de son tableau epistemológico initiale. Celui-ci est l'objectif proposé dans cet article. Dans ce sens, refléter sur les ruptures et les disloquements provoqués par cette discipline de j'entremêle dans le secteur d'études de la langue fait partie de cette tâche. En partant des présuppositions théoriques dans M. Pêcheux, nous proposons clouer quelques relations théoriques de celui-ci avec M. Foucault et M. Bakhtin pour essayer de montrer que cette ligne de recherche permet toujours la (poupe) construction de son tableau teórico-metodológico d'avoir je mange objectif promouvoir des questionnements et donc être toujours sujet à des éloignements et approches théoriques et méthodologiques. Donc, se place la nécessité de connaître héritages pour comprendre filiations: il est indispendable de tourner et (poupe) de lire Pêcheux.
MOTS-CLÉS: Analyse de Discours ; langue; histoire; idéologie; inconscient.
INTRODUÇÃO
A Análise de Discurso francesa (AD), com origens em meados de 1960, chegou rompendo modos e “modelos” de trabalhar com a linguagem e amplia as perspectivas para um novo campo teórico e metodológico. Desde então, tem se expandido e despertado interesse de muitos estudiosos, apresentando-se como uma disciplina crítica da linguagem. Na virada da década de 70, a AD se concretizou como uma disciplina universitária[2], rompendo limites, criando adeptos e sugerindo novos gestos de interpretação. Para tanto, o seu campo de conhecimento está sempre investindo na (re)investigação de seus pressupostos.
Na conjuntura teórico-política em que emerge a AD, Maldidier (1994) destaca a presença de duas personalidades que supostamente marcam sua dupla fundação. Com Jean Dubois e M. Pêcheux tem-se o encontro do linguista com o filósofo, os quais, mesmo apresentando preocupações distintas, fazem parte de um horizonte comum que se caracteriza pela presença do marxismo e da política. Dubois e Pêcheux posicionavam-se diferentemente ante a “nova disciplina”. O primeiro a vê dentro de um continuum em que é natural a passagem do estudo da palavra para o enunciado, e o segundo vê a necessidade de uma teoria do discurso (AAD-69) que alie discurso, sujeito e ideologia. Enquanto um oscila entre estruturalismo (imanência) e integracionismo (sujeito e situação), o outro desenvolve um questionamento crítico da linguagem. Mesmo com divergências a autora vai colocar pontos em comum: o ato fundador de uma disciplina transversal (constituição de teoria e objeto de estudos) e a constituição de sua metodologia (com o lançamento da revista Langages, em março de 1969).
No Brasil, as relações sociais e ideológicas, as noções de língua, de sujeito e de história e as relações de sentido no processo de significação da linguagem estão sempre sendo lapidadas por esta disciplina estar situada no entremeio das ciências sociais e humanas e por relacionar em seu quadro teórico-metodológico estudiosos que abrem questões internas aos estudos dos discursos. Ao tratar da linguagem e sua constitutiva relação com a exterioridade, e ao refletir questões que se processam, principalmente, atingindo a constituição dos sentidos na linguagem, a AD tem tentado manter-se firme em seu objetivo, que é o de “compreender os modos de determinação histórica dos processos de produção dos sentidos, na perspectiva de uma semântica de cunho materialista” (Mariani, 1998a, p. 23). A partir disso, traçamos um panorama de estudos que contemplará, no gesto de fundação da AD, a identificação desta com os conhecimentos advindos de diferentes regiões do conhecimento científico com as quais se articula não de forma linear ou homogênea.
Para tanto, referenciamos algumas relações teóricas entre M.Pêcheux, M. Bakhtin e M. Foucault na constituição da AD (que a inicia enquanto análise do discurso político) pela importância que assumem os estudos destes teóricos, que são até hoje retomados e cultivados de forma total ou parcial no Brasil. Em um curto e produtivo espaço de tempo, Pêcheux constrói sua teoria dando à Semântica seu enfoque histórico e, para que isso fosse possível, articula outros campos teóricos.
Inicialmente, destacamos que Pêcheux e Foucault, na França e Bakhtin, na Rússia, ocupam diferentes espaços. Além disso, Bakhtin destacou-se inicialmente no âmbito dos estudos literários, diferentemente dos outros dois. As recusas de Pêcheux incidem mais sobre Bakhtin que sobre Foucault, mesmo que no decorrer do tempo Pêcheux, incorpore algumas propostas bakhtinianas. Sobre Foucault, Pêcheux promove deslocamentos e questiona alguns pressupostos teóricos, como ressaltaremos no decorrer do texto.
Na primeira seção, intitulada A Linguística e a AD: rupturas e deslocamentos, retomamos aspectos da Linguística que no geral são (re)significados pela AD, sendo uma das questões primordiais a (re)significação do modo de olhar para o funcionamento da língua. Na segunda seção, O Materialismo Histórico e a AD, propomos refletir sobre história e ideologia na constitutiva relação entre sujeitos e sentidos. Na terceira seção, A teoria do processo discursivo da AD, consideramos os estudos de Michel Pêcheux na caracterização dessa forma singular de olhar para a língua através do discurso, tendo na questão ideológico-discursiva seu pilar de sustentação. E na quarta seção, O sujeito de natureza psicanalítica da AD, abordamos questões da relação entre língua, sujeito e inconsciente na teoria de Pêcheux.
Em uma Tríplice Aliança[3], segundo Pêcheux (1997a), a AD aparece como uma disciplina de ruptura que delineia seu quadro epistemológico articulando Linguística e Materialismo Histórico (em Althusser), sendo estas atravessadas pela Psicanálise, campo que inclui a subjetividade (sujeito de natureza psicanalítica) na linguagem (Pêcheux e Fuchs, 1997, p. 163). Cada uma dessas regiões do conhecimento traz contribuições específicas para a AD e é através dessa articulação de diferentes áreas de conhecimento que propomos pensar a relação entre Pêcheux, Foucault e Bakhtin.
Para deslocar das ciências sociais seu caráter empirista-cientificista, Pêcheux (1997a, p. 89-90) toma o Materialismo Histórico com bases filosóficas que sustenta a continuidade entre práticas científicas e práticas políticas. Sobre uma base material no interior do Materialismo Histórico, apresenta a AD entre a Linguística e as ciências das formações sociais. Para romper com a concepção de sujeito mestre de sua morada da Psicologia, toma a concepção de inconsciente introduzida por Freud e revista por Lacan. Pêcheux critica a separação entre língua e fala promovida por Saussure, e consequentemente justifica seu deslocamento para outro campo epistemológico, sendo que a Linguística, então, “é solicitada constantemente para fora de seu domínio” (Pêcheux, 1997a, p. 87) e passa a ter de olhar para a subjetividade da linguagem, inevitavelmente.
Algumas questões sobre o estruturalismo também foram colocadas por Bakhtin (2004, p.14), valorizando justamente a fala (social), a enunciação, de natureza não individual e ligada às condições da comunicação que por sua vez são ligadas às estruturas sociais e que foram renegadas por Saussure. Este estudioso se opõe ao subjetivismo abstrato dos formalistas russos e ao subjetivismo idealista que vê o sujeito como fonte dos sentidos.
Promovendo rupturas, surgem novos olhares sobre o sentido, abrindo para um novo e renovável objeto de estudos: o discurso (e seus efeitos de sentido). Desde o início, vai deslocando as noções propagadas pelos estudos da linguagem tradicionais e impondo um diferencial em seu modo de trabalhar a língua e outras questões de linguagem. Portanto, teórico-metodologicamente a linguística disponibiliza o material que servirá para a análise do funcionamento linguístico-discursivo. Nesse sentido, a materialidade linguística não é renegada, pelo contrário, ela é necessária, mas sob outro ponto de vista. Com isso, diferenciamos o trabalho do analista de discurso do trabalho do linguista, e é a própria concepção de língua que determina o olhar e o gesto que se mobiliza ante o trabalho da linguagem. De uma concepção língua/sistema (a do estruturalismo[4], do gerativismo[5]), língua/pragmática (da enunciação[6]) para língua/discurso, existem diferenças no olhar sobre a língua.
1.1.1 Da língua ao discurso
Na década de 60, na França, a AD opõe-se ao estruturalismo reinante, que tem como representante o “pai” da Linguística e, nos Estados Unidos, opõe-se à gramática gerativa transformacional em desenvolvimento, visando à explicação das línguas, já que as outras tendências se propunham a fazer descrição das línguas. Ao mesmo tempo se desenvolviam os trabalhos de Jakobson (como em Linguística e comunicação), Benveniste e Ducrot na teoria da enunciação. Na Europa, o modelo linguístico estruturalista que buscava ainda as regularidades estruturais nos mecanismos da língua se firma com Bloomfield e Harris (distributivismo) (In Lyons, 1970).
Do Estruturalismo, as questões que Pêcheux vai abrir, opondo-se às correntes linguísticas de postulados filosóficos idealistas, partem dos estudos estruturalistas de Saussure, que, no Curso de Linguística Geral, mostram a dependência do lado social ao individual na linguagem. Ao separar a língua da fala, ele separa o social e essencial do individual e acessório (Saussure, 1974, p. 22). Com esse gesto o autor expõe o lado da imprevisibilidade e do equívoco da língua, se posta em relação com a exterioridade (a fala). Desta forma, Saussure constata que existe uma exterioridade que turva a língua, que a faz deslizar. Então, do estruturalismo, a AD desloca a noção do funcionamento da língua para a o funcionamento discursivo e, desta forma, rompe com modos de trabalhar a materialidade linguística.
Talvez Pêcheux e Bakhtin tenham divergido em suas críticas ao objetivismo abstrato de Saussure, mas de modos e momentos diferentes, como coloca Gregolin (2006). Pêcheux afirma a leitura equivocada de Saussure por Volochinov/Bakhtin que tende a opor ao sistema abstrato das formas linguísticas o fenômeno social da interação verbal da(s) enunciação(-ões), conduzindo a linguística à semiologia (Maldidier, 2003, p. 60). Para Pêcheux, o corte saussuriano permite pensar a singularidade do sujeito na língua e também a articulação da língua e inconsciente.
Essas diferentes leituras de Saussure causam diferentes efeitos de sentido e fazem com que entre esses estudiosos do discurso internamente à área se abriguem disputas e solidariedades, principalmente voltadas a leituras de Pêcheux.
Nesse contexto, Noam Chomsky formula sua teoria criticando a descrição pura das línguas, como vinha sendo realizada e faz emergir uma teoria com ênfase sintática, que reduzia o sujeito a uma posição dentro da frase (Lyons, 1970). Como ressalta Orlandi (1986, p. 108), nesta teoria “o que se procura determinar são os processos metodológicos que permitem reduzir e classificar segmentos do texto. Formalizar. Não se procura estabelecer a instituição do sentido do texto, mas determinar como são organizados os elementos que o constituem”. Mesmo que tenha considerado como objeto de estudos o texto, o gerativismo se mostra como mera extensão dos procedimentos linguísticos usuais (Pêcheux, 1997a, p. 61). Sem abandonar a língua sistêmica de Saussure, Chomsky e seus seguidores ainda trabalham a língua como objeto científico desvinculado do social e dos processos de significação, conforme Indursky (2005b). Da gramática gerativa transformacional a AD difere pela forma de abordar a questão da transformação, para enfocá-la do ponto de vista da ideologia, que reflete sobre as relações de força e as relações de sentido no discurso.
No âmbito da Teoria da Enunciação, em Benveniste (1995), estão colocadas as questões de se tratar da língua em termos de subjetividade. Nesta tendência de estudo, a subjetividade funda-se na relação “eu” e “tu” (marca da pessoa) versus “ele”, marca da não-pessoa na linguagem, tida como “a capacidade do locutor para se propor como ‘sujeito’”, isso mostra que a consciência de si é possível em contraste com o outro. A linguagem é, portanto, a possibilidade de subjetividade, e o discurso é que provoca a emergência da subjetividade como “sentimento que cada um experimenta de ser ele mesmo” (Ibidem, p. 286). Trata-se de perceber no exercício da língua uma relação intersubjetiva, isto é, a necessidade de se incorporar aos estudos linguísticos os fatos envolvidos no evento da produção dos enunciados. Ao promover um estudo da natureza dos pronomes e a distinção entre discurso e história, diz que os aspectos discursivos da linguagem (para interlocutores na e pela linguagem) fazem dela uso referencial. Portanto, na enunciação, o indivíduo apropria-se da linguagem e o funcionamento da língua se dá por um ato individual. Mesmo não se limitando ao sistêmico, e considerando os interlocutores em situação de enunciação, esta linha de estudos vai tratar de elementos linguístico-pragmáticos, definindo assim outra forma de trabalhar com a linguagem (Indursky, 2005b ).
Já a língua trabalhada em processo como na AD remete ao funcionamento da linguagem e aos efeitos de sentido identificados, por exemplo, enquanto diferentes sentidos possíveis de um mesmo enunciado, de acordo com as condições em que é (re)produzido. A partir disso, não se considera a língua enquanto entidade ahistórica. Se a língua produz efeitos de sentido, ela escreve e transforma a história, e o próprio texto se revela ao analista pela sua historicidade, que é o modo como a história se inscreve na linguagem e como se dá o trabalho dos sentidos no texto. Nesse contexto, Pêcheux (1997a, p. 87-94), ao relacionar base linguística e processo discursivo, trabalha com uma autonomia relativa do sistema linguístico. Vai mostrar que na medida em que há relação entre a Linguística e a teoria dos processos ideológicos e históricos, a língua assume sua característica de base comum de processos discursivos diferenciados e que dessa relação advém sua opacidade.
Pêcheux (Ibidem, p. 95-103) mostra que os processos discursivos colocam em relação dois domínios de pensamento: o pré-construído, termo sugerido por Paul Henry, o que foi construído antes, em outro lugar independentemente do formulado e o que está contido na afirmação global da frase – articulação de enunciados. Nessa relação se considera as discrepâncias, separação ou distância entre domínios/conteúdos de pensamento constitutivos da linguagem como um efeito discursivo de encaixe sintático.
No nível da formulação (o dito) da linguagem pode haver o efeito de linearidade e se apagam aparentemente as discrepâncias. Nesse nível da linearização, que diz respeito ao fio do discurso e não ao sentido se percebe a articulação da teoria do discurso com a linguística. Essa materialidade está em relação com suas condições de produção como material simbólico que contém espessura semântico-histórica e não superfície plana e organizada. Um mesmo tema terá diferentes efeitos de sentidos em diferentes condições de produção. O texto assim considerado constitui um arquivo que não está enquadrado no critério da homogeneidade. Isso revela muito do movimento dos sujeitos/sentidos, do trabalho da ideologia e da interpelação do sujeito.
Segundo Orlandi (2005), o texto não deveria ser tomado apenas enquanto unidade, mas enquanto unidade significativa, como “monumento”, na afirmação de M. Foucault. Para tanto, ela situa a natureza da exterioridade ao se trabalhar com o discurso, relacionando-o aos sentidos de outros discursos. Então, o texto está sempre aberto a gestos de interpretação: “ele tem relação com outros textos (existentes, possíveis ou imaginados), com suas condições de produção (os sujeitos e a situação) e com o que chamamos exterioridade constitutiva, ou seja, o interdiscurso, a memória do dizer (o que fala antes, em outro lugar, independentemente)” (Ibidem, p. 87). Portanto, os textos, em AD, não serão tomados enquanto estruturas fechadas, mas abertos à exterioridade que lhes é constitutiva, e há um deslocamento substancial em se ver o que o texto diz e o como o texto faz para dizer o que diz, como trabalhado nessa linha de pesquisa.
A relação texto-condições de produção, tal como entendidos em AD, serve de observatório ao analista de discurso por permitir observar o trabalho da história e da memória nas relações de sentido no discurso. Acredita-se que a língua serve tanto e ao mesmo tempo para comunicar quanto para não-comunicar (Pêcheux, 1997a, p. 26) e, por isso, ao se ocupar com a superfície linguística ou a sua referencialidade (pragmática, por exemplo) essencialmente, corre-se o risco de restringir o trabalho com a linguagem à evidência e à plenitude do sentido.
Nesse trabalho de observação discursiva é que apreendemos a contradição em seus efeitos de sentido, incluídas aí práticas sociais e discursivas. O discurso para a AD é efeito de sentido para os interlocutores, como nas palavras de Pêcheux. É uma das maneiras de perceber a ação da ideologia e sua não-neutralidade. A evidência de se saber exatamente o que um enunciado quer dizer é efeito de evidência necessário à produção e à tomada-de-posição do sujeito no discurso.
O que foi dito até aqui contribui para a uma visão das relações estabelecidas entre a teoria e a metodologia da AD não mais voltadas ao estudo da materialidade linguística em si, mas de uma materialidade linguística em relação à exterioridade. O que muda com a AD é o olhar do analista, que vai apreender o gesto de interpretação, o enfoque dado ao material linguístico e ao seu dispositivo teórico-analítico. Não haverá mais espaço para um sujeito de consciência, separado do social, e para uma língua fechada, convencional, e que contribui para a hierarquia social, pois a ideologia imprime sentidos aos dizeres e pode ser observada nas e pelas práticas sociais. Se há consciência, se há linearização e estabilização de sentidos, será por um efeito necessário. Como diz Orlandi (2004b, p. 105), “A ideologia não é ocultação, ela é produção de evidências”. Com o quadro abaixo, pretendemos promover um olhar sobre essas noções mobilizadas pela AD:
Quadro ilustrativo dos deslocamentos promovidos pela AD
Tendências da Linguística | Deslocamentos da AD | |
Texto | § Texto | § Textualidade-discursividade |
§ Documento, funcionamento linguístico | § “Monumento”, materialidade simbólica, funcionamento discursivo | |
§ O que/para que/ para quem o texto quer dizer? | § Como este texto significa? | |
Situação | § Contexto: referência espaço, tempo | § Condições de produção: lugares histórico-ideológicos |
Conceitos | § Conceitos teóricos independentes que servem para o trabalho com dados, com marcas linguísticas | § Conceitos teórico-metodológicos relacionados (rede) para o trabalho com fatos, pistas e propriedades discursivas |
Língua | § Contrato social | § Determinação histórico-ideológica |
§ Cristalizada, estabilizada | § Dispersa, aberta | |
§ Organização, transparência | § Ordem, opacidade | |
§ Abstrata | § Material | |
§ Sistêmico-pragmática | § Sistêmico-discursiva | |
§ Homogênea | § Heterogênea | |
§ Autonomia absoluta | § Autonomia relativa | |
§ Objeto empírico | § Objeto teórico-metodológico | |
§ Atividade criativa | § Atividade produtiva-processual | |
§ Lugar da explicação/descrição de sentido | § Lugar do trabalho dos sentidos como possibilidades do/no discurso | |
Sujeito | § Falante ideal | § Histórico, Interpelado ideologicamente e afetado pelo inconsciente |
§ Individual /social | § Sócio-histórico-ideológico | |
Sentido | § Estabilizado, literal | § Transformação de sentidos e seus efeitos |
§ Um mesmo tema tem sentido em diferentes ocasiões | § A um mesmo tema são atribuídos efeitos de sentido diferentes em diferentes condições de produção | |
§ Forma linguística | § Materialidade linguística e histórica | |
§ Evidência | § Opacidade e efeito de evidência | |
Objeto | § Língua | § Discurso |
No contraponto entre as diferentes maneiras de trabalhar com a língua/linguagem estabelecem-se divergências teórico-metodológicas. Esse quadro de deslocamentos promovidos e de ancoragem do trabalho da AD faz a diferença por trabalhar com base em uma teoria materialista e psicanalítica do sujeito/sentidos, isto é, trata-se de uma teoria não-subjetiva da subjetividade, a qual, para Pêcheux (1997a, p. 131), relaciona três regiões, a saber: subjetividade, discursividade e descontinuidade ciências/ideologia. O que falta à linguística para pensar a língua é justamente esta relação que se estabelece com a exterioridade no diálogo com a materialidade linguística. É a questão de se entender o que constitui o discurso em seu processo de significação. Falta entender e “aceitar” que a língua é o espaço político (e não somente da política) por excelência e, portanto, da contradição, e que nenhum sentido pode ser apreendido em sua completude e unicidade.
Na perspectiva da AD, a língua incessantemente vai trabalhando sentidos e possibilitando interpretações. Ao mesmo tempo em que ela reproduz esses sentidos, ela também tem a possibilidade de transformá-los, de (re)significá-los em diferentes condições de produção. O discurso, nesse sentido, pode ser espaço para (poder) dizer e para não (poder) dizer, e é pela materialidade da língua que as temáticas permitem que sejam apreendidos diferentes efeitos de sentido articulados, isto é, que se entenda a língua em uma determinação histórica.
1.2 A AD E O MATERIALISMO HISTÓRICO
O Materialismo Histórico se coloca como um fundamento capaz de explicar os processos sócio-históricos de uma formação social[7] e é ele quem permite legitimar cientificamente os estudos que envolvem as relações sociais. À concepção idealista de História a AD contrapõe a concepção materialista da história, que foi construída a partir das relações de produção e de trabalho do homem, as quais determinam as relações sociais e políticas. Nesta caminhada epistemológica e teórica da AD existe atravessamento de conhecimentos advindos de campos diferentes se completando para constituir seu objeto de estudo. Se a AD trabalha também com o exterior da língua, se trata de refletir sobre a teoria das formações sociais e de suas transformações, trata-se, então, de uma teoria das ideologias (Pêcheux, 1997a, p. 32).
Nessa conjuntura, algumas personalidades desempenharam importante papel social para pensar o sujeito e a ideologia, ou seja, as relações imaginárias sobre o mundo. Uma das obras citadas por Pêcheux para o estudo do pensamento social e político desde o aparecimento da AD foi Aparelhos Ideológicos de Estado – AIE –, de Althusser (1985). Este autor (Althusser) formula sua teoria para criticar a teoria funcional das instituições e refletir sobre o mecanismo de sujeição, como comenta Albuquerque na introdução crítica em AIE (Ibidem, p. 7). Althusser concebe uma teoria das ideologias levando em consideração as formações sociais e a luta de classes. É a partir da leitura de Althusser que Pêcheux (In Henry, 1997) sustenta a relação entre prática política e social, levando a concluir que não há prática fora da ideologia. Para Althusser, o sujeito é agente dessa prática e este só se torna sujeito através da interpelação ideológica. E é na falta de maior explicitação sobre a interpelação pela linguagem que Pêcheux (1997b, p. 34) introduz o que chama de discurso e desenvolve a teoria e o dispositivo da AD. Uma das críticas feitas por Pêcheux (1997b, p. 129) versa sobre a questão ideológica, pois em outras tendências ela é tomada enquanto modo de ocultação ou de mascaramento dos sentidos e dos sujeitos. No entanto, ele afirma que estas concepções são a
[...] Dupla face de um mesmo erro central, que consiste, de um lado, em considerar as ideologias como idéias e não como forças materiais e, de outro lado, conceber que elas têm sua origem nos sujeitos, quando na verdade elas “constituem os indivíduos em sujeitos”, para retomar a expressão de L. Althusser.
Com base nesses conhecimentos Pêcheux busca construir uma Teoria Materialista do Discurso e diz que o que interessa à AD é justamente o sujeito interpelado, sugerido por Althusser, sendo o lugar da materialidade da ideologia o discurso e não o sujeito. Em Leandro Ferreira (2005a, p. 188) está escrito que “na produção do conhecimento há/deve haver espaço para deslizamentos, deslocamentos, e isto sucede, de acordo com Pêcheux, em função da tensão existente entre o complexo das ideologias teóricas que determinam os ‘interesses’ teóricos em confronto”. Portanto, Pêcheux instaura uma nova perspectiva de estudos na linguagem, refletindo o seu funcionamento próprio que é a reinscrição da teoria em uma teoria marxista do discurso. Então, a linguagem (o discurso) é o jogo constante entre ideologias que configuram as tomadas de posição discursivas nunca de maneira aleatória, mas em uma base constituída de um processo histórico-ideológico.
A leitura marxista de Pêcheux, via Althusser, cria discrepâncias na AD. Podemos dizer que entre Pêcheux e Bakhtin esta é uma das grandes divergências e aqui também retorna a questão dos efeitos causados pela política e de crise do marxismo contra o ‘reformismo’ (Pêcheux 1990a, Maldidier, 2003). Podemos também dizer que as questões colocadas por Bakhtin e reconhecidas em Pêcheux sobre o caráter sistêmico e social da linguagem foram pontos nodais para que se entendessem a heterogeneidade dos processos discursivos através da heterogeneidade discursiva em Authier-Revuz (Gregolin, 2006).
De acordo com Pêcheux (1997a, p. 143), faz-se, portanto, necessário pensar o discurso sob a perspectiva do processo materialista do conhecimento por caracterizar um processo através de tomadas de posição do sujeito. A partir disso, faremos uma explanação mais detalhada desse trabalho de legitimação das noções de ideologia, sujeito e sentidos na AD e, para isso, partiremos da noção de condições de produção do discurso.
1.2.1 As condições de produção do discurso
O termo discurso apresenta diferentes concepções em diferentes tendências de estudos. O mesmo ocorre com a expressão condições de produção. Em outros campos a noção é tomada enquanto contexto, isto é, como elementos externos ao texto que servem para ampliar sua significação global. Em uma situação comunicativa se falaria em situação e circunstâncias que permeiam os dizeres, ou seja, em referencialidade. Diferentemente do modo como é tratada a noção de condições de produção em outras linhas, ela traz consigo uma trajetória de legitimação no trabalho da AD.
No início dos estudos a noção de condições de produção em Pêcheux, na AAD-69, foi definida como determinadas circunstâncias de um discurso em que se colocam em jogo as relações de força, as relações de sentido e o jogo de antecipações em uma interlocução – contrariamente ao que ocorre através do esquema informacional da comunicação de Jakobson (Pêcheux, 1997b, p. 72). Afirma-se que o discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas tendo em vista os lugares sociais que são constitutivamente históricos e determinados pelas relações sociais. Esses lugares sociais não seriam dados a priori, mas construídos e representados no processo discursivo através das formações imaginárias. Com base na noção de formação imaginária o sujeito locutor tem uma imagem de si, de seu interlocutor, da imagem que o interlocutor faz de si, do objeto do discurso, isto é, tanto A quanto B mergulham nas formações imaginárias que compartilham. O sujeito locutor poderá, a partir disso, antecipar as representações do imaginário do outro e produzir seu discurso.
Pêcheux (Ibidem, p. 81-3) define esses lugares como espaço de representações sociais constitutivas do processo de significação discursiva colocados em jogo em contraposição a um “feixe de traços objetivos”. Por exemplo, pode-se pensar na representação política, na figura do porta-voz, enfim, pensar nas relações postas em jogo no processo de significação. Nesse processo se colocam protagonistas não individualmente, mas na representação de lugares (que atribuem, a si e ao outro, a imagem do seu lugar e do lugar do outro) numa determinada formação social, e o referente como um objeto imaginário em condições históricas na produção de um discurso. Então, exterioridade e interioridade não se separam, pelo contrário, relacionam-se simultaneamente. Há movimento dos sentidos e a língua é tendente à falhas e deslizamentos, nunca fechada e homogênea. A partir do enfoque dado à língua pelo estruturalismo, como abordado e criticado na AAD-69, o autor se questiona (Pêcheux, 1997c) sobre as relações entre a língua e a exterioridade, e enfatiza, nos trabalhos posteriores, questões que envolvem a ideologia e o inconsciente, sendo a noção de processo o que o faz ver a questão da constituição e construção do corpus e outras questões de maneira promissora.
Assim, Althusser (1985, p. 53-4) fala da reprodução das condições de produção em uma formação social. Isso também auxilia Pêcheux a pensar na questão ideologia/contradição de classes: “Portanto a condição última da produção é a reprodução das condições de produção”, sendo estas condições de produção as que devem reproduzir as forças produtivas e as relações de produção existentes (reais). Nesse contexto, Pêcheux difere por considerar não somente a reprodução das condições de produção, mas sua transformação.
Pêcheux e Fuchs (1997), na AAD-75, retomam Althusser e retificam uma ambiguidade do texto de 1969 sobre o termo condições de produção, por designar ao mesmo tempo o efeito das relações de lugar no qual se acha inscrito o sujeito e a situação no sentido concreto e empírico do termo, isto é, o ambiente material e institucional e os papéis mais ou menos conscientes colocados em jogo. No limite, permitiriam dizer que determinam a situação vivida pelo sujeito no sentido subjetivo inerente a uma situação experimental. Faltava a teoria do imaginário localizada em relação ao real, que possibilita também o modo de assujeitamento da AD.
Nesse sentido, as condições de produção não são os filtros ou os freios que interferem no funcionamento da linguagem, mas fazem parte de um processo social e sua base tem materialidade linguística. Retomando o texto de Pêcheux (AAD-69), em Pêcheux e Fuchs (1997), irrompem no cenário as articulações entre condições de produção ligadas às formações imaginárias, procurando relacionar as questões ideológicas ao/no discurso.
Nessa trajetória teórica é Courtine (1981) quem contesta as origens das condições de produção enquanto lugar da análise do conteúdo (psicologia social), quando admite variáveis sociológicas, o estado social do emissor, o do destinatário, as condições sociais da situação de comunicação responsáveis pelas condições de produção do discurso. Para chegar à noção de condições de produção vigente, Courtine avança no estudo desta noção quando coloca que a definição de condições de produção de Pêcheux, inserindo as noções de imagem e formação imaginária, poderia ser substituída pelo termo “papel” da sociologia (elas não podem ser simples “circunstâncias” (Pêcheux, 1997b, p. 75)), conforme uma operação psicologizante. Postula, portanto, a redefinição de condições de produção alinhada à análise histórica das contradições ideológicas presentes na materialidade dos discursos.
Conforme Orlandi (2001, p. 30), as condições de produção compreendem os sujeitos, a situação e a memória que fazem parte da exterioridade linguística e (sub)dividem-se em condições de produção de sentido amplo (contexto sócio-histórico-ideológico) e estrito (enunciativo, contexto imediato). Portanto, para a AD, as condições de produção não compreendem as circunstâncias imediatas, nem o papel dos indivíduos colocados em jogo, ou o lugar definido por referências ou a situação de fala, mas um lugar historicamente constituído, de onde falam sujeitos interpelados pela ideologia e afetados pelo inconsciente.
Para ilustrar o modo de leitura em AD e a relação entre os dizeres e as condições de produção, trazemos um enunciado que circula em faixas e cartazes na cidade de Maceió, capital de Alagoas, desde junho de 2008 aproximadamente. Inicialmente, analisamos uma fachada que não continha o nome do estabelecimento comercial evidente, nem alguma referência a algum evento. Inicialmente, esse enunciado está sendo veiculado através de faixas externas em fachadas de vidro. Vejamos:
Depois de algum tempo o enunciado foi aparecendo em estabelecimentos comerciais que trabalham com venda de produtos como decorativos de ambientes, móveis e material de construção. As fotos a seguir foram tiradas em 20 de junho de 2008 e não tem como objetivo qualquer propaganda de estabelecimentos da cidade. Reveja o enunciado nas fotos:
No contexto, depreendemos que a referência a ALAGOAS deve dar-se pela abrangência da promoção de venda. Ao nos depararmos com este enunciado na fachada de uma loja que vende artigos para decoração, por exemplo, podemos depreender que o vocábulo CASA remete às residências familiares e ao chamamento para que se arrume ou se AJEITE nova decoração de ambiente consumindo os produtos que a loja oferece.
1
2
Como colocamos anteriormente, sem a referência a promoção (foto 2), poderíamos deslocar esse enunciado para outras condições de produção. Se colocássemos a palavra CASA relacionada ao Estado de Alagoas poderíamos ler o enunciado no campo político, por exemplo. A CASA pode ser tomada enquanto Governo de Alagoas. Essa possibilidade fica colocada pela emergência de fatos políticos ligados a corrupção no Estado[8], veiculados pela mídia especificamente e que remetem a uma memória social. De um chamamento ao consumo, então, ficaria o clamor do povo pela organização e moralização do Governo, como podemos retomar através da organização de uma manifestação em Maceió organizada por partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos, funcionários públicos e tribos indígenas na foto adiante.
Manifestação em Alagoas pede fim à corrupção (em 19 de fevereiro 2008)
A questão mudança e da melhora aqui entra em foco. Arrumar ou ajeitar o lar, portanto, mobiliza outro olhar pelo discurso político que pode ser colocado enquanto um organizar ou moralizar a instituição que é o Governo do Estado de Alagoas. Os dois apelos mostram a não conformidade e que algo não está bem e precisa mudar, seja o espaço físico de ambientes, pelo bem estar da família ou individual, sejam os modos de governância, pelo bem-estar social. O apelo está em renovar, em arrumar o que está desarrumado ou errado-certo, em MUDAR.
Portanto, mudam as condições de produção, mudam as interpretações. Através da memória é que podemos estabelecer as relações entre os dizeres e o atravessamento dos discursos.
1.2.2 Ideologia, sujeito e sentidos
Um dos deslocamentos mais importantes promovidos pela AD é o da noção de ideologia. Falar em ideologia na AD não é uma “força” que manipula ou impulsiona sujeitos a identificarem-se com determinados conhecimentos e com determinados idéias/sentidos, mascaramento, filtro ou ocultação. Em relação ao sujeito em AD, como já foi dito, ele é interpelado pela ideologia, portanto, faz-se necessário compreender que no recrutamento[9] dos indivíduos em sujeitos se observa justamente que eles recebem como evidentes os sentidos que ouvem, dizem, escrevem ou calam, já que o sujeito não é origem dos sentidos ou do discurso, porque se identifica com determinados domínios de saber.
Em AD, a ideologia imprime sentidos à linguagem, pois “A ideologia não possui um exterior (Pêcheux, 1997b, p. 177) (para si mesma), mas [...] ao mesmo tempo ela é exterioridade para a ciência e para a realidade”. Nesse sentido, a forma de trabalho que toma a ideologia como ocultação pretende a estabilização dos sentidos e colocam o sujeito como senhor do seu ponto de vista. No entanto, trata-se de uma necessidade que o sujeito afetado pelo inconsciente tem em ser o “proprietário” do seu dizer. Assim, o ponto de vista é o do sujeito e não da ideologia, nem da ciência, nem do real.
Althusser (1985), que é retomado por Pêcheux, diz que a ideologia é o motivo para o funcionamento dos Aparelhos Ideológicos de Estado, os AIE, que não são os repressores, pois eles não funcionam pela violência e, sim, pela ideologia. Ao tratar da ideologia desta maneira ele a relaciona diretamente à proposição de Freud sobre o inconsciente e retoma, afirmando: “a ideologia é eterna, como o inconsciente” (Ibidem, p. 85, 88, 93), por ter uma existência material e representar a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. Deste modo, a ideologia não representa a ocultação ou a manipulação de sentidos, mas ela age na interpelação dos indivíduos em sujeitos no processo de significação. Têm-se, então, bases para uma teoria que leva em conta a maneira de pensar um sujeito que aceita “livremente” sua sujeição (afetado pelo inconsciente) e, por estar identificado a determinada formação discursiva, tem os sentidos como “naturalizados”.
Por tudo isso é de interesse desenvolver as noções de sujeito e de sentido a partir da afirmação: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é afetado pelo inconsciente simultaneamente. Nesta perspectiva, pode-se dizer que “os sujeitos se constituem pela sua sujeição”, segundo Althusser (1985, p. 104). Pêcheux (1997a) comenta que a ideologia e o inconsciente produzem um tecido de evidências “subjetivas” que constituem o sujeito. Nesse caso não se trata apenas de concordância ou apoio aos sentidos, mas de adesão ou antagonismo enquanto tomadas de posição (Pêcheux, 1997b, p. 85). A ideologia fornece o efeito de evidência ao sujeito interpelado por meio da própria dialética do discurso e por se tratar de um processo. Neste sentido, retomaremos a relação que o autor estabelece para explicar a figura da interpelação: a “[...] constituição do sentido junta-se à da constituição do sujeito, e não de um modo marginal [...], mas no interior da própria ‘tese central’, na figura da interpelação” (Pêcheux, 1997a, p. 153-4).
O sujeito trabalhado pela AD é uma posição entre as demais. Assim, ele ocupa um “lugar”, que não lhe é acessível, para ser sujeito do que diz. Quando um professor, um padre ou um político falam, eles o fazem de determinados lugares histórico-sociais. Funciona como se cada uma dessas vozes representasse um “papel” social sempre em construção pela história e pela ideologia nas relações de força e de sentido no discurso. Podemos dizer que do lugar em que os sujeitos inscrevem suas palavras derivam seu(s) sentido(s) em relação com outros sentidos/discursos.
A partir do enfoque dado ao trabalho ideológico na linguagem em AD, se concebem diferentes pontos de vista na maneira como é tratado o sujeito. Se Althusser traça o perfil do sujeito (agente-sujeito) enquanto ser ativo na história sob a determinação[10] das relações de produção e de reprodução e em suas formas, é Pêcheux quem dá autonomia ao sujeito na reprodução; então o sujeito produz, reproduz e transforma os sentidos na história. Com isso, consideramos a prática discursiva como uma atividade que tem a ideologia como constitutiva e que põe o sujeito em uma relação imaginária com o mundo “real”. Por isso, nem o sujeito, nem os sentidos serão literais, unos ou evidentes, senão aparentemente, mas poderão ser sempre outro(s), poderão deslizar, pois o próprio sujeito deixa de ser ideal para ser interpelado ideologicamente no processo de significação.
Portanto, Pêcheux formulou e reformulou a noção de sujeito da AD tendo na ideologia sua essência. Primeiramente (AAD-69) o sujeito é lugar determinado na estrutura social, ou seja, o sujeito aí se encontra representado, isto é, presente, mas transformado. Para ele o sujeito nunca foi individual, mas social. Num segundo momento (AAD-75), o sujeito ganha o traço de ser dotado de inconsciente. Afetado pelo inconsciente, o sujeito atua sob um efeito de ilusão, pensando ser a fonte do seu dizer. Com isso Pêcheux propõe uma “teoria não subjetiva da subjetividade”, articulando inconsciente e ideologia. O Sujeito (Outro de Lacan) permite discernir que o recalque inconsciente e o assujeitamento ideológico estão materialmente ligados, sem se confundirem no “processo do Significante na interpelação e na identificação, na realização do que chamamos as condições ideológicas de reprodução/transformação das relações de produção” (Pêcheux, 1997b, p. 133-4).
Por seu funcionamento, o sujeito da AD (Pêcheux & Fuchs, 1997) tem a ilusão de saber o que está dizendo, funcionando na zona do esquecimento 2 (do dizível, do repetível, do reformulável), da enunciação. Estamos diante da ilusão de liberdade do sujeito da AD: eu sou dono de minhas palavras. Relacionada a esta ilusão, está a zona de esquecimento 1 (da ideologia), do recalcamento do sujeito. Nesta direção, percebe-se o sujeito da AD como sendo duplamente afetado: em seu funcionamento psíquico e em seu funcionamento social; interpelado pela ideologia sem que se dê conta disso ou mesmo tendo a ilusão de domínio sobre o seu discurso: eu sou dono de minhas palavras e eu sei o que elas querem dizer. Portanto, o sujeito constitutivamente histórico-ideológico e dotado de inconsciente. No processo, Pêcheux (1997a) fala do efeito sujeito, do ponto em que há identificação do sujeito consigo mesmo e com o outro (ego): “A unidade (imaginária) do sujeito, sua identidade presente-passada-futura encontra aqui um de seus fundamentos” (Ibidem, p. 167) e do efeito de intersubjetividade nas relações de sentido da formação discursiva. Afirma, então, que na relação do sujeito consigo e com o outro e com a marca do inconsciente como discurso Outro na enunciação se observa a tomada-de-posição do sujeito:
[...] a tomada de posição resulta de um retorno do “Sujeito” no sujeito, de modo que a não-coincidência subjetiva que caracteriza a dualidade sujeito/objeto, pela qual o sujeito se separa daquilo de que ele “toma consciência” e a propósito dos que ele toma posição, é fundamentalmente [...] O “desdobramento do sujeito” – como tomada de consciência de seus objetos – é uma reduplicação da identificação, precisamente na medida em que ele designa o engodo dessa impossível construção da exterioridade no próprio interior do sujeito (Pêcheux, 1997a, p. 172).
No entanto, divergindo da leitura de Marx via Althusser em Pêcheux, outras correntes estão trazendo a leitura sobre a ideologia de Marx e Lukács os quais:
“afirmam que a ideologia nasce diretamente do cotidiano dos seres sociais em sua atuação na sociedade, significando que a ideologia só tem existência histórico-social se referida sempre a uma realidade específica sobre a qual atua. A nosso ver, a interpelação ideológica e inconsciente defendida por Althusser retira do sujeito a possibilidade de uma reflexão consciente sobre sua própria história, única possibilidade do sujeito de propor respostas que contrariem as existentes, trazendo a criação do novo como matriz da sociabilidade humana, como afirma o materialismo histórico-dialético.” (Magalhães, 2007, p. 334)
Em Magalhães (2007) podemos encontrar algumas considerações e aproximações teóricas entre Pêcheux e esses dois teóricos. Uma delas está na capacidade do ser social de criação do novo a partir do que a objetividade permite ao sujeito escolher:
Haverá sempre a possibilidade do desvio, do equívoco, isto é, da possibilidade de superação da identificação. Nesse sentido, o sujeito determinado socialmente e condicionado pelo inconsciente tem sempre um lugar de não-filiação, dado também pelas possibilidades da própria objetividade, seja ela tomada no nível macro, ou referido, como faz Pêcheux, à língua quando esta incorpora a poesia [...] (p. 328)
A autora afirma que o gênero humano e a sociabilidade que ele estabelece é ontologicamente histórica. Isso faz com que algumas questões de Pêcheux sobre a noção de história sejam consideradas diferentemente em Marx, principalmente no tocante às contradições básicas da sociedade subsumidas às relações de classe. Podemos dizer, então, que há possibilidades da leitura direta em Marx (do ‘verdadeiro marxismo’), como já realizam algumas tendências de AD no Brasil.
Nessa mesma tendência, o que vai interessar é a possibilidade do sujeito do discurso, pois, conforme Magalhães (2003), em Pêcheux há “um assujeitamento definitivo do sujeito que impede o estabelecimento do sujeito/autor, isto é, o sujeito capaz de criar o novo”. Dessa forma, a crítica à Pêcheux incide sobre a noção de esquecimento 2. O fazer discursivo e o sujeito nesta perspectiva “é uma práxis humana que só pode ser entendida a partir do entendimento das contradições sociais que possibilitaram sua objetivação” e nesse sentido a autora também coloca a relação entre a subjetividade e a objetividade em que o mundo real e o sujeito cognoscente não podem ser confundidos. O sujeito é uma particularidade (entre a universalidade e a singularidade).
Nesse espaço de igualdades e diferenças, por exemplo, é que se instaura o gesto (que sempre pode ser outro) como prática significante (Pêcheux 1969, simbólico) “que traz em si tanto a corporalidade dos sentidos quanto a dos sujeitos, enquanto posições simbólicas historicamente constituídas, ou seja, posições discursivas (linguístico-históricas)” (Orlandi, 2004b, p. 27).
A esta altura podemos dizer que a teoria materialista do discurso está longe de ser idealista e a prática discursiva nunca será vista como neutra. A ideologia trata dessas questões através da noção de contradição constitutiva da linguagem e acrescenta uma forma dialética de abordar a linguagem. O que permeia a AD, portanto, são os fundamentos que explicam a relação entre práticas sociais e ideológicas.
1.3 A TEORIA DO PROCESSO DISCURSIVO DA AD
Em sua caminhada de produção escrita, o fundador da AD dá a conhecer a Teoria do Discurso. Na AAD-69 (Pêcheux, 1997b), ele propaga o rompimento com as dicotomias que sustentam a base das tendências científicas idealistas ao questionar seus pressupostos. Ao observar as relações (oposição, combinação, subordinação) das formações formalista-logicista, histórica e da linguística da fala enquanto tendências da Linguística (1997a, p. 15-84), ele não coloca a AD como uma quarta tendência, mas contribui para pensar as contradições e mostrar o estatuto pré-científico em que considera as ciências sociais quando do estabelecimento de instrumentos e objeto/objetivos de análise. Portanto, desde o início Pêcheux propõe mais que uma nova forma de ler. Ele coloca o discurso em um lugar que não cabe somente à língua ou somente à fala, tal como tratadas por Saussure. Considerando as ciências sociais em um estado pré-científico, conforme Henry (1997, p. 15), ele pretende construir uma teoria do sentido em que a subjetividade seja não-subjetivista (Pêcheux, 1997a, p. 131). Em sua crítica ferrenha às concepções idealistas, Pêcheux afirma que não haverá compreensão das práticas políticas e de produção de conhecimentos, incluindo a pedagógica, caso o sujeito ideológico seja tratado como sempre já-dado e não como um efeito ideológico sujeito (Pêcheux, 1997a, p. 131).
Este campo epistemológico compreende a “teoria da determinação histórica dos processos semânticos”. Trabalhada por Pêcheux e Fuchs (1997, p. 164), esta teoria exige uma articulação entre o Materialismo Histórico, a Linguística e as outras regiões do conhecimento requisitadas na constituição da AD (e todas articuladas pela Psicanálise). Pêcheux (1997a), ao articular as três regiões do conhecimento científico mostra que a teoria histórica dos processos semânticos está em constante (re)constituição.
De maneira geral, o trabalho da AD traz indicativos de um deslocamento na noção de sentido, pois existem diferenças teórico-metodológicas em não se tratar de um sujeito psicológico, mas de um sujeito feito do ideológico e dos processos inconscientes na linguagem; em não se tratar da estrutura linguística, mas do modo de funcionamento discursivo; e em não se estabelecer como resultado do trabalho com o discurso sentidos estabilizados, mas buscar apreender os efeitos de sentido no processo de significação.
Em seu trabalho de instauração da teoria do discurso e de deslocamento na questão do que vem a ser língua na AD, Pêcheux (1997a, p. 91-3) vai explicar que o sistema da língua é o mesmo para todo sujeito, mas não se pode dizer que o discurso seja o mesmo. Nessa diferenciação entre língua e discurso ele vai deslocar a noção de língua enquanto função mantenedora de uma estrutura, enquanto base linguística, para o funcionamento enquanto base comum de processos discursivos desenvolvidos sobre leis internas à língua e exterior. Mais que isso, a língua não é vista como superestrutura, pois em se tratando de processo discursivo tem-se uma língua que se inscreve numa relação ideológica de classes. Portanto, a língua serve para pensar o processo discursivo. Neste processo, ela é possibilidade do discurso e confirma o fato de que os discursos/sujeitos podem confrontar-se ou harmonizar-se em determinada conjuntura histórica na linguagem. Desta forma, Pêcheux e também Courtine (1981, p. 11) pensam no discurso enquanto mantenedor de uma constante relação entre o linguístico e o ideológico no processo de significação, sem correr o risco de reduzir o discurso ao estudo da língua ou ao trabalho histórico sobre as ideologias.
Desse modo, a partir da constituição desse campo epistemológico, interessa como se dá o encontro do linguístico com o ideológico, os funcionamentos responsáveis pela produção dos efeitos de sentido e a língua em processo de produção de sentidos. O discurso, então, para a AD, não é fala (no sentido saussuriano); é prática social, cuja regularidade pode ser apreendida na análise dos processos de sua produção/transformação.
1.3.1 Formação discursiva: relações e representações
Uma das questões produtivas para entender a AD está na compreensão do modo de funcionamento da noção de formação discursiva. Esta noção é produtiva para pensar e “aceitar” que a linguagem é constitutivamente o palco de disputa de dizeres, de alianças e de contrastes entre diferentes domínios de saber, entre formas-sujeito e entre posições-sujeito no discurso. Na compreensão da noção de formação discursiva relacionada à de formação ideológica reside uma maneira de apreender relações de sentido e de força no discurso.
Foi em Michel Foucault que o termo formação discursiva foi significado. De posse dos pressupostos que o autor utilizou para teorizar o discurso, mesmo que situado em outro quadro epistemológico, Pêcheux (1997a) (re)significou essa noção. Nesse sentido, retomar a trajetória de categorização dessa noção é compreender como a formação discursiva envolve regularidades e instabilidades dos sentidos de maneira dialética no discurso. Portanto, ao articular diferentes perspectivas da noção estou envolvendo um diálogo entre a interioridade e a exterioridade, inter e intradiscurso, entre a noção de formação discursiva, memória e história.
Na introdução da obra Arqueologia do saber, Foucault (2005), a partir da noção de história antropológica para a história voltada à arqueologia, faz uma crítica ao trabalho com textos e, para estabelecer as diferenças nas tendências de estudos, considera o texto-documento e o texto-monumento. A questão que o autor abre é a de pensar a descontinuidade (ruptura), e é pensando nesse pressuposto que a história recebe a função de transformar os documentos em monumentos e descrevê-los intrinsecamente. Isso significa que seu olhar estava voltado tanto para a regularidade quanto para a singularidade do texto/discurso. Com base em um mesmo tema, visto de maneiras diferentes, conjuntos de enunciados dispersos comportam “estratégias diversas que permitem a ativação de temas incompatíveis, ou ainda a introdução de um mesmo tema em conjuntos diferentes” (Ibidem, p. 42-4), surgindo daí a necessidade de descrição dessas dispersões, através do que ele nomeia de sistemas de dispersão, como formas de (re)partições em formações discursivas. Portanto, ele descreve enunciados e procura estabelecer suas relações. Com base nas regularidades descritas (ordens, correlações, posições, funcionamentos e transformações) o autor vai trabalhar a questão do sistema/regras de formação (Ibidem, p. 82-5), em que se preocupará com a caracterização de um discurso ou grupo de enunciados com a regularidade de uma prática.
Ao tratar da descrição dos enunciados e da função enunciativa, Foucault mostra (1996, p. 89-119) que as regularidades são princípios que constroem os enunciados entre o relacioná-los e o dispersá-los. “Assim, o enunciado circula, serve, esquiva-se, permite ou impede a realização de um desejo, é dócil ou rebelde a interesses, entra na ordem das contestações e das lutas, torna-se tema de apropriação ou de rivalidade”. Enunciado, então, também é monumento, e a função enunciativa denomina o lugar que a língua ocupa para não significar apenas enquanto um conjunto de signos, mas para passar a constituir enunciados que surgem em sua materialidade com status para operar em estratégias que mantêm ou apagam sua identidade. Foucault pensa a organização do conhecimento e analisa as regularidades, e não as transformações do discurso. Portanto, a sua noção de formação discursiva não comporta a carga ideológica:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva (Foucault, 2005, p. 43).
Pêcheux (1990a) vai contrapor em seu texto dois estudiosos da linguagem para questionar a questão do trabalho com a ideologia: Foucault e Spinoza. Diz que o segundo, mesmo 300 anos antes do advento do materialismo histórico, a partir do discurso religioso previa uma abordagem ideológica da linguagem; e que o primeiro não avançou nos estudos que tomam a ideologia como o segundo e, portanto, não houve operacionalização da questão da contradição em Foucault. Na sequência, o autor vai desenvolver sua crítica a partir da noção de formação discursiva em sua relação com a formação ideológica e vai colocar a questão de se trabalhar a língua e sua referência histórica ante a luta de classes na sociedade capitalista. Portanto, ele nada mais distingue que diferentes maneiras de pensar o político e de trabalhar nele.
Diferentemente de Foucault, Pêcheux tem na ideologia sua essência. No geral, no mesmo Pêcheux podem-se descrever duas etapas da noção de formação discursiva. A primeira concebe a noção de formação discursiva rígida, conversando consigo e não com outras, caracterizando-se como homogênea, na qual o sujeito histórico, isto é, a forma-sujeito, responsável pela organização do saber de sua formação discursiva é dotado de unicidade (Pêcheux e Fuchs, 1997). Faz-se importante, assim, sempre levar em conta a noção de filiação de sentidos às formações discursivas, para que das relações que daí emanam se possa trabalhar os efeitos de sentido na língua. Pêcheux ressalta que
As palavras, expressões, proposições, etc., recebem seu sentido da formação discursiva na qual são produzidas... os indivíduos são “interpelados” em sujeitos-falantes (em sujeitos de seu discurso) pelas formações discursivas que representam “na linguagem” as formações ideológicas que lhes são correspondentes (1997b, p. 160-1).
Na contrapartida de Foucault, a formação discursiva agora serve para pensar o político, pois insere aí o ideológico (não-neutralidade). É um princípio organizador ideológico que regula o que pode ou não estar dentro da formação discursiva. Uma formação discursiva é aquilo que numa formação ideológica dada (posição, conjuntura), determinada pela luta de classes, determina “o que pode e deve ser dito” (Pêcheux e Fuchs, 1997, p. 166) e “o que não pode e não deve ser dito” (Courtine, 1981, p. 49). Portanto, a formação discursiva deriva de determinadas condições de produção e existe historicamente. Num segundo momento, decorrente de reflexão discursiva, a formação discursiva passa a comportar diferentes posições-sujeito que geram a contradição e a igualdade, caracterizando a heterogeneidade da formação discursiva e da posição-sujeito, em que há a presença da diferença no interior da mesma formação discursiva e que caracteriza a fragmentação do sujeito:
[...] uma FD não é um espaço estrutural fechado, pois é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras FD) que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (por exemplo sob a forma de “preconstruídos” e de “discursos transversos” (Pêcheux, 1997c, p. 314).
Em Pêcheux (1997a, p. 162) o interdiscurso é o “’todo complexo com dominante’ das formações discursivas”, sendo ele também submetido à lei de desigualdade-contradição-subordinação que caracteriza o complexo das formações ideológicas. Portanto, a heterogeneidade é característica marcante do interdiscurso. Podemos, então, depreender disso que o interdiscurso e o intradiscurso são elementos relacionados, e o caráter da forma-sujeito que se identifica com a formação discursiva é que “simula o interdiscurso no intradiscurso”. Este sujeito do saber, universal e/ou histórico, como é chamada a forma-sujeito, é responsável pela ilusão de unidade do sujeito. A questão da forma-sujeito para a AD é a maneira pela qual o sujeito se identifica com a formação discursiva que o constitui, e se dá quando o sujeito retoma os elementos do interdiscurso que o determinam.
Pêcheux traz da psicanálise para o discursivo a (re)significação da questão da determinação do sujeito do discurso e aciona a noção de pré-construído (o estranho-familiar de Freud) na relação entre elementos do interdiscurso: “Os traços que permitem determinar o sujeito no discurso dependem do pré-construído (sempre-já-aí, universal) e do processo de sustentação (articulação, discurso-transverso)” (Ibidem, p. 163) e, portanto, em determinada formação discursiva, cujas margens “porosas” não permitem a estabilização dos sentidos, podemos trabalhar com a forma-sujeito.
Diremos, então, que o “pré-construído” corresponde ao “sempre-já-aí” da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade” e seu “sentido” sob a forma da universalidade (o “mundo das coisas”), ao passo que a “articulação” constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ela representa, no interdiscurso, aquilo que determina a dominação da forma-sujeito (Pêcheux, 1997a, p. 164).
A articulação funciona sobre as evidências do contexto situacional, que dispensa explicações e funciona como o que é consenso: “A articulação corresponde a ‘como dissemos’ (evocação intradiscursiva); ‘como todo mundo sabe’ (retorno do Universal no sujeito); e ‘como todo mundo pode ver’ (universabilidade implícita de toda situação ‘humana’). Em suma, todo sujeito é assujeitado no universal como singular ‘insubstituível’ [...]” (Pêcheux, 1997a, p. 171).
Esse efeito de universalidade através do pré-construído configura a relação interdiscursiva, e o efeito de linearização do discurso se dá através das relações intradiscursivas. Então, através do discurso-transverso é que o pré-construído se apresenta enquanto algo “naturalizado” discursivamente e sustenta o efeito de evidência.
O interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito-falante”, com a formação discursiva que o assujeita (Pêcheux, 1997a, p. 166-7).
Portanto, Pêcheux faz compreender que não há como separar o estudo da língua do de suas condições de produção, por dizerem respeito a uma relação histórica e ideológica. Nesse processo de tomada-de-posição do sujeito na formação discursiva podemos pensar o desdobramento do sujeito, ou seja, a dissimulação do assujeitamento que corresponde à relação entre pré-construído e articulação ou efeito-transverso que constitui o sujeito em sua relação com o sentido, isto é, representa no interdiscurso aquilo que determina a dominação da formação ideológica.
Com base na noção de formação discursiva heterogênea em relação a si mesma e em relação a outras formações discursivas, observam-se as relações entre interdiscurso e intradiscurso. Para que isso seja possível faz-se importante pensar no “interdiscurso como espaço de acolhimento do mundo factual discursivizado”, segundo Dorneles (2005), constituindo-se em um observatório dos movimentos de sentidos/sujeitos através de lugares sociais instituídos na formação social: “Esse grande conjunto de saberes, o interdiscurso, traz as formações sociais discursivizadas para o processo de assujeitamento. Da formação social é dado observar a realidade. É na formação social que os processos discursivos depositam transitoriamente seus efeitos”. Para a autora, a formação social (capitalista neste caso) apresenta saberes que são regulados por códigos, manuais de comportamento, condutas tradicionais, práticas que simbolizam o social e que são recortados e acolhidos em determinada formação discursiva pelo movimento do interdiscurso sobre si mesmo, cujo assujeitamento pressupõe sua preexistência.
A formação social dá a reconhecer lugares sociais discursivizados e constituídos sob a dominância de diferentes formações ideológicas. Portanto, o interdiscurso articula e é articulado na formação discursiva, vale dizer, é articulação de dizeres diante de outros dizeres em suas diversas relações de sentido.
Então, a formação discursiva passa a ser de um conjunto de saberes produzidos através de um sujeito histórico-ideológico sujeito a (re)configuração. Em processo, trata-se de um sujeito, enquanto posição em determinada formação discursiva, que se identifica com a forma-sujeito da formação discursiva (Pêcheux, p. 1997a). Então, a forma-sujeito é o sujeito do saber de uma determinada formação discursiva e é por ela que o sujeito do discurso se inscreve em determinada formação discursiva por identificação.
Diante da heterogeneidade da própria formação discursiva (de seus saberes, sujeitos, sentidos) e desta com outras formações discursivas, associa-se a idéia de alteridade, que é a presença do discurso do outro como discurso de um outro e/ou discurso do Outro, em que é articulada na memória discursiva a relação entre inter e intradiscurso. Mesmo na movimentação que vai da identificação à desidentificação (efeito de dissenso) com a forma-sujeito, a ideologia funciona às avessas, sobre e contra si mesma, sem, no entanto, implicar a morte/desaparecimento do sujeito, pois ele nunca será neutro ou indiferente ideologicamente. O que ocorre é um deslizamento para outra formação discursiva ou forma-sujeito (historicamente determinada), e nunca seu apagamento.
Em sua leitura sobre a trajetória de legitimação da noção de formação discursiva, Indursky (2005a) recupera as questões que Pêcheux (1997a) coloca a respeito da reduplicação da identificação e sua relativização através das modalidades de tomadas-de-posição do sujeito no âmbito da formação discursiva para caracterizá-la como portadora de alteridades, contradições e diferenças. Portanto, para que se possa entender a noção de formação discursiva heterogênea é imprescindível relacioná-la ao interdiscurso, que é o conjunto de domínios de saber caracterizados pela diferença e igualdade. A autora observa que para uma formação discursiva ser heterogênea ela comporta uma forma-sujeito que também é heterogênea por comportar outras diferentes posições-sujeito em seu domínio de conhecimento. Pensar a forma-sujeito fragmentada como a posição-sujeito em relação com o interdiscurso, delineia fronteiras porosas para a formação discursiva e apenas um efeito de fechamento para fins de organização de análise do discurso do analista, pois não se trata do “fechamento da máquina discursiva”. A teorização e a divisão de um discurso na mesma ou em diferentes formações discursivas decorrem da análise do corpus em AD, portanto, ela não serve apenas de metodologia, como classificação ou estabilização de sentidos, como em Foucault, mas, para tanto, segue pressupostos teóricos.
Relacionada à noção de formação discursiva, para Pêcheux (1997b, p. 166-7), a noção de formação ideológica caracteriza as “posições de classe em conflito umas com as outras” que perpassam os aparelhos ideológicos de Estado. O autor mostra que cada formação ideológica constitui um complexo de atitudes e de representações, nem individuais, nem universais, mas relacionadas às relações de confronto entre as classes, características de uma formação social em dado momento como idéias vigentes. Portanto, o autor relaciona indissoluvelmente o discursivo e o ideológico.
Na perspectiva de Pêcheux a formação ideológica é composta, então, de uma ou várias formações discursivas interligadas e heterogêneas por serem invadidas por elementos que vêm de outras formações discursivas, e é o domínio de saber de cada formação discursiva que realiza seu fechamento, todavia instável. É na formação discursiva que o linguístico constitui-se de sentido e é também o lugar de determinação do sujeito enunciador. Existe, portanto, uma relação constante e indissociável da formação discursiva com o interdiscurso.
A questão da determinação de fronteiras da formação discursiva para Pêcheux (1997c, p. 311-6) é algo que não pode ser feito através de classificações, categorizações ou quantificações, como postulado por outras tendências da área. O interdiscurso é a noção que mostra um todo complexo de formações discursivas em constante relação externa/interna. Em Courtine (1981, p. 33-49), a formação discursiva está intrinsecamente relacionada às condições de produção, ao interdiscurso, o que propicia constantes deslocamentos das fronteiras. Para este autor, as fronteiras da formação discursiva são instáveis, tendo em vista as posições ideológicas que coexistem no âmbito da formação discursiva. Por poderem incorporar elementos pré-construídos, os quais reconfiguram os saberes da formação discursiva, as fronteiras deslocam-se. Esses pré-construídos instauram a contradição interna à formação discursiva. Nesse movimento é possível perceber que sentidos se constituem na relação entre o exterior e o interior de determinada formação discursiva.
O exterior à formação discursiva é dissimulado para o sujeito. Através do efeito do insconsciente e do ideológico o sujeito tem como mascarada a existência de um saber exterior, e dessa forma é ocultado ao sujeito falante que está dominado por determinada formação discursiva. A esse funcionamento, Pêcheux (1997a, p. 173-7) chama de esquecimento número 1. Além dele, no processo de constituição do sentido, há o que Pêcheux (idem) chama de esquecimento número 2, relacionado à reformulação-paráfrase, em que o pré-construído é acolhido e reconfigurado para inscrever-se no intradiscurso. A formação discursiva cobre exatamente o funcionamento do sujeito do discurso na formação discursiva que o domina (determina), na esfera da consciência e da intersubjetividade.
Tanto a crença de dominar o seu discurso quanto a ilusão da existência do sentido como tal são efeitos ideológicos. Nesse sentido, o autor fala sobre a evidência do sujeito, com base em Althusser:
Como todas as evidências, inclusive as que fazem com que uma palavra ‘designe uma coisa’ ou ‘possua significado’ (portanto inclusive as evidências de transparência da linguagem), a evidência de que vocês e eu somos sujeitos – e até aí não há problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar (Pêcheux, 1997a, p. 31 apud Althusser).
De mão da tese materialista, Pêcheux (1997a, p. 77) passa da evidência do sujeito para o processo sem sujeito (evidência, homogêneo), de linha filosófica. Na visão materialista ele colabora para a noção ideológica de sujeito e comenta que Althusser coloca a reflexão em torno da noção de sujeito coletivo como tendo um problema a resolver quanto à questão da identificação ou identidade do sujeito considerado “uno” (unidos-massa) pela AD. Considerando que “As massas não são um sujeito” (Ibidem, p. 130), o sujeito-massa seria, sim, uma identificação coletiva, mas nada assegura sua total identificação com uma formação discursiva, pois ela é caracterizada, assim como o sujeito, como heterogênea. Pêcheux diz sobre o processo sem sujeito que na AD se caminha da evidência do sujeito até a forma-sujeito como efeito desse processo sem sujeito e afirma que “[...] uma teoria materialista dos processos discursivos não pode, para se constituir, contentar-se em reproduzir, como um dos seus objetos teóricos, o sujeito ideológico como sempre já-dado” (Ibidem, p. 130). Então, de acordo com Pêcheux (1997b, p. 179), ao mesmo tempo que o sujeito tem a ilusão de propriedade dos dizeres, ele é interpelado, pois a ideologia é necessidade “cega” do sujeito.
Para Pêcheux a exterioridade não é a remissão a um momento marcado da História, mesmo que na dispersão, mas diz respeito às relações inter-intradiscursivas constantes das formações discursivas. Isso conduz a pensar no sujeito enquanto uma posição discursiva a partir das práticas de linguagem com as práticas sociais ideológicas. Portanto, a partir da relativização nas tomadas de posição, Pêcheux (1990, p. 192-5) revê a noção de ideologia e consequentemente de formação discursiva. No âmbito da formação discursiva, portanto, coexiste a identidade e a divisão. Parafraseando o autor, diremos que uma ideologia não é idêntica a si mesma e existe sob a modalidade da divisão, realizando-se a partir da contradição que com ela organiza a unidade e a luta dos contrários.
Se a formação discursiva é constituída pela diferença, pela divergência e pela igualdade, a forma-sujeito também o é. Sobre isso Courtine (1981, p. 51) afirma que chamar-se-á domínio da forma-sujeito o conjunto das diferentes posições de sujeito em uma formação discursiva como modalidades particulares de identificação do sujeito da enunciação ao sujeito do saber. Pode-se entender também que há mais que um desdobramento da forma-sujeito e das posições-sujeito discursivas na formação discursiva, tendo também como característica a contradição. A esse respeito, Indursky (1999) afirma que “Um sujeito [...] mostra-se mais que desdobrado. Ele é um sujeito dividido, heterogêneo e disperso em relação aos saberes da formação discursiva em se que inscreve e em relação aos sentidos que mobiliza e produz, constituindo o que estou chamando de fragmentação do sujeito em AD”, e orienta a pensar em um processo de tomada-de-posição do sujeito ante a ideologia que lhe é constitutiva.
1.4 O SUJEITO DE natureza psicanalítica da AD
No quadro epistemológico da AD a Psicanálise está colocada como uma teoria da subjetividade que atravessa e articula as outras três disciplinas. Leandro Ferreira (2005b, p. 213) observa que a zona de fronteira entre as disciplinas que fazem parte do quadro epistemológico da AD francesa é instável, tensa, contraditória e ao mesmo tempo fecunda. Numa zona de interfaces, a AD constitui-se na fronteira entre o sentido e o não-sentido, entre o possível e o impossível, entre a completude e a incompletude. Não há como delimitar o início de uma disciplina e de outra em seu quadro, pois elas se confundem, se imbricam, se enlaçam.
A concepção de sujeito adotada pela AD não é a de sujeito unipotente e individual, mas é aquela que se constitui num movimento que pressupõe a presença da exterioridade em relação a si mesmo e ao inconsciente, e isso implica pensar também nos sentidos como sempre sujeitos a serem outros. Neste caso, a subjetividade não corresponde ao sujeito psicológico. Esse é um deslocamento realizado pela AD na questão da subjetividade, por fazer oposição ao idealismo subjetivista que imperava nas teorias da subjetividade, conforme sublinha Henry (1997). O sujeito, então, é uma particularidade por ser constituído entre universalidade e singularidade.
1.4.1 Língua, inconsciente e ideologia
Dentre muitos outros pontos a serem refletidos sobre a Linguística, a obra de Gadet e Pêcheux (2004) marca uma época de profundos questionamentos na área de estudos da linguagem. Em especial, ela valerá para pensar as questões que envolvem a psicanálise nos estudos discursivos. A presença de Milner (1987, apud Gadet e Pêcheux, 2004) atesta que as reflexões que têm na psicanálise seu ponto de apoio são produtivas e apontam para questões que dizem respeito à não-apreensão, ou impossível apreensão, dos sentidos todos na língua. Trata-se do trabalho do sujeito do desejo, que produz sentido e é produzido por ilusão necessária, porque afetado pelo inconsciente. Os autores fazem referência, então, a Milner por tratar especificamente da lalangue (alíngua), isto é, do real da língua. A alíngua é interditada pela língua, que em seus efeitos ora a mostra, ora a recolhe, mas nunca a exclui. Gadet e Pêcheux (2004, p. 52), retomando a tese de Milner, dizem que o real da língua da AD francesa é o lugar do impossível e que o materialismo histórico é algo que se separa politicamente do autor, pois a língua possui relação com a história e o equívoco pode ser o ponto que faz com que a língua atinja a história através da contradição e do impossível:
A tese defendida por Milner relaciona, assim, inteiramente, a possibilidade da linguística com aquilo que a língua contém do impossível, “impossível de dizer, impossível de não dizer de uma determinada maneira”. O Édipo linguístico corresponde ao fato de que toda a alíngua não pode ser dita, em qualquer língua que seja. [...] Milner valoriza que “o fato de que um impossível deva dar lugar a uma proibição explícita prova que há pelo menos um lugar do qual se fale do que não se pode falar: esse lugar é a alíngua” (Gadet e Pêcheux, 2004, p. 64).
Assim, para pensar questões como a do sujeito e do sentido, faz-se necessário relacionar estas noções a uma teoria psicanalítica. No entanto, o sujeito da AD não é o sujeito psicanalítico. O sujeito tal como entendido na AD é um sujeito do inconsciente e da ideologia. Nesse percurso, não desvinculo qualquer relação de inconsciente e ideologia na linguagem. Nessa perspectiva o sujeito é uma posição-sujeito numa relação de identificação entre o sujeito enunciador e o sujeito do saber (forma-sujeito). Então, são diferentes indivíduos que se relacionam com a forma-sujeito de uma formação discursiva e se constituem em sujeitos ideológicos, ocupando diferentes/mesmas posições.
O campo da psicanálise, nesse cenário, vem a ser o campo do inconsciente, como a teoria do desejo. O sujeito da AD, sujeito desejante e assujeitado, atravessado pela teoria do inconsciente, sob o efeito dos esquecimentos 1 e 2, que, nos estudos de Orlandi (2001, p. 35-7), a partir de Pêcheux, é posto em relação à constituição do objeto da linguagem em análise. O primeiro esquecimento é da ordem do ideológico pela instância do inconsciente, transitando ininterruptamente entre o interior e o exterior, entre intradiscurso e interdiscurso, com a impressão de “livre escolha” na cadeia linguística; e o segundo – o esquecimento 2 –, é da ordem da enunciação. Para a autora:
Concordamos em chamar esquecimento 2 ao “esquecimento” pelo qual todo sujeito-falante “seleciona” no interior da formação discursiva que o domina, isto é, no sistema de enunciados, formas e sequências que nela se encontram em relação de paráfrase – um enunciado, forma ou sequência, e não um outro, que, no entanto, está no campo daquilo que poderia reformulá-lo na formação discursiva considerada (Ibidem).
O sujeito da AD não representa a fonte nem a origem do dizer senão na consideração do “teatro da consciência”. A consciência do dizer se deve ao efeito necessário de “ilusão do sentido” em estar à frente do processo e de impor seu desejo de controle de sentidos via inconsciente e ideologia na linguagem. Descentrado, o sujeito distancia-se do sujeito consciente, senhor de seus dizeres e de seus atos, que controla a língua. É de um sujeito marcado pela incompletude e pelo desejo de ser completo que trata a AD. Então, é com a noção de efeito de linguagem, de efeito-sujeito, que se opera, e não com a de sujeito da linguagem.
Nesse ponto há o lugar para as duas ordens do real que o analista procura entender: da língua e da história. O real da língua é mostrado por Milner (1987) como a língua materna recalcada, a alíngua, o impossível de se dizer, o impossível de não se dizer. Mesmo que a língua queira interditar a alíngua, essa se mostra em sua resistência. A partir disso, Gadet e Pêcheux (2004, p. 35, 52) retomam o real da língua de Milner relacionando-o ao real da história. Nessa obra os autores mostram que a ciência e a política produzem efeitos sobre um mesmo objeto. A AD, portanto, preocupa-se em “Entender o real como impossível ou, dito de outro modo, como ponto de ruptura, permite pensar no que sempre falta e escapa às cadeias significantes já constituídas. E no que falta se marca o descontínuo, o não-linear e com uma temporalidade de outra ordem” (Mariani, 1998b, p. 91).
Nesse sentido, no processo de interpelação-identificação é que se realizam as filiações constituídas pelas redes de memória: “memória atravessada ao mesmo tempo pelas relações inconscientes e determinações históricas”, como atesta Mariani (Ibidem, p. 90). Portanto, “ser trabalhado pela língua diz respeito à entrada do sujeito em um mundo já dotado de sentidos que o antecedem. Há, nesta entrada, uma memória discursiva já organizando este mundo para o sujeito” e, portanto, o sujeito não age na escolha de sua interpelação por estar afetado pelo modo de interpelação da AD.
Assim, o real da língua é efeito da contradição constitutiva dos processos sócio-históricos. Nesse sentido, a língua não serve para tudo dizer, pois o tudo e o todo não se dizem, mas também não se apagam. Aquilo que está recalcado retorna e vaza, mesmo com medidas de contenção. Nessa relação tensa em que a língua suporta a alíngua há negociação e, a partir disso, é que surge a noção de simbólico da AD: a ressignificação. Então, por conceber o discurso enquanto “efeito de sentido entre interlocutores”, compreende-se a linguagem como prática simbólica “que se constitui pela via do significante e que se encontra na gênese do processo de constituição do sujeito”, conforme Mariani (Ibidem, p. 88). Portanto, não é do sujeito social caracterizado nesta dissertação como lugar empírico localizável essencialmente que trata a AD, mas do sujeito mediatizado e constituído pelo simbólico.
Nessa entrada do sujeito no simbólico é apagada a questão do processo (representação). A ilusão do sujeito como unidade funda-se no “desconhecimento/ esquecimento das determinações discursivas que o constituem”, como explica Mariani (Ibidem). Esse efeito de evidência mostra o processo de interpelação e/ou identificação da ordem do significante (que é capaz de equívoco, deslize, falha) enquanto fundamento simbólico, sem perder caráter de unidade ou de totalidade. O equívoco, que é aquilo que está para além de controle, então, é ponto em que a língua toca a história e o inconsciente. Portanto, a pretensa liberdade do sujeito, tratada por muitos sob o aspecto da intencionalidade, não é senão um efeito necessário, pois sujeito e língua se constituem mutuamente. O sujeito é relativamente livre e relativamente determinado pelos mecanismos externos e internos. A esse respeito, Leandro Ferreira diz:
Precisamente no espaço de tensão entre essas duas forças é que a AD vai trabalhar, enfrentando a contradição entre a vontade de hipertrofia do sujeito e a submissão ao assujeitamento. Essa tendência oscilante tão própria do discurso faz com que o sujeito mantenha uma relação ativa no interior de uma formação discursiva: assim como é determinado, também a determina, por força de sua prática discursiva (2003, p. 192).
O sujeito interpelado pela ideologia e afetado pelo inconsciente produz apagamentos e a ilusão da evidência e da transparência da linguagem. Assim sendo, pode-se antecipar que a teoria do discurso é uma teoria da materialidade do sentido que procura dar conta da ilusão necessária do sujeito/sentido. Neste cenário, nem sujeito, nem sentido são unos ou evidentes: “Se não houvesse a FALTA, se o sujeito fosse pleno, se a língua fosse estável e fechada, se o discurso fosse homogêneo e completo, não haveria espaço por onde o sentido transbordar, deslizar, desviar, ficar à deriva”, como comenta Leandro Ferreira (2004, p. 40). O real da língua faz referência a sua constituição enquanto sistema discursivo que é marcado pelo equívoco, pela falha e pela imperfeição. Real é diferente de realidade (prática social):
Para a AD, portanto, sentido e sujeito se definem por uma relação com processos significantes que não se realizam soltos, abstratamente, mas sim na historicidade. Estar exposto ao equívoco e à falha é mergulhar na opacidade dos sentidos, é estar exposto à contradição, à não-coincidência entre as palavras e as coisas, entre o que se diz e o que se quer dizer (Mariani, 1998b, p. 93).
Assim, é nas falhas do “ritual”, nos deslizamentos, na deriva de significantes, e outros, que se pode entrever no simbólico. Então, no repetível, o retorno do mesmo se processa de várias formas e não há reprodução exata. É de uma língua que falha, de texto com seus diferentes modos de significar na tensão entre paráfrase e polissemia, que o impossível (de ser dito) se inscreve. Assim, “Se, como postula a AD reterritorializando alguns conceitos da psicanálise lacaniana e do materialismo histórico, há uma materialidade do inconsciente e da ideologia, tal materialidade se dá pela e na linguagem”, como indica Mariani (1998b, p. 92).
A famosa trilogia que se baseava em transparência, univocidade e regularidade nos estudos da linguagem cede lugar a incompletude, equívoco e dispersão de sentidos na AD: “Sujeito e linguagem se apresentam como estruturas que comportam esse furo, o qual se manifesta pelo estranho, enquanto categoria desencadeadora da ruptura. Linguagem, em Lacan, é o sistema que está em jogo como a língua. Este sistema precede o sujeito e o condiciona” (Leandro Ferreira, 2004, p. 43). É esse o “estranho que nos habita”. Ao mesmo tempo, a língua também é o espaço da resistência: “Daí esses jogos “linguageiros” de acréscimos, supressões, retificações, enfim, vãs tentativas de controle dos efeitos de sentidos” (Mariani, 1998b, p. 94). Eis o “jogo” que nos é proposto entre sujeito e língua no processo de significação: o jogo discursivo, as diferentes leituras.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Em AD, não somente a língua passou a ser vista de modo diferente, mas no que diz respeito ao campo epistemológico, teórico e metodológico, esta disciplina chega para desestabilizar a área. Tendo como objeto o discurso, deixa de considerar apenas o conteúdo para considerar como a linguagem funciona em processos de significação. Deixa de considerar a referencialidade da prática linguística, para adentrar nas condições de produção daquilo que se diz (se pode dizer) e do que se deixa (não se deixa) de dizer nunca de forma homogênea. No entanto, e com o passar do tempo, esta disciplina não deixou de se recompor de forma a acompanhar o quadro social de época.
Por estar situada no entremeio de diferentes regiões do conhecimento, a AD permite sempre novos questionamentos. O trabalho do analista tem a característica de não estabilizar olhares e de não criar ‘fetiches’, embora existam, em torno de autores e apanhados teóricos, pois as contradições e as transformações regem os gestos de interpretação e acompanham as condições de produção da própria disciplina. Dessa forma, a AD vai sempre e cada vez mais problematizar as maneiras de ler fazendo com que no funcionamento da linguagem possamos tentar entender os sentidos que damos ao mundo e à vida.
Ao trazer Pêcheux e relacionar a ele outros teóricos do discurso percebemos que o gesto de leitura está sempre aberto, pois tudo depende do olhar do analista e de seus objetivos. Essa referencialidade teórica e metodológica pecheutiana se mantém, mesmo que em embates, na maior parte das tendências da AD no Brasil. Destacamos, portanto, a representatividade de Bakhtin e Foucault para significar as relações entre sujeito, história e ideologia, questões centrais para pensar o sujeito e os sentidos da contemporaneidade.
Portanto, no geral, há mais pontos relevantes em comum entre os analistas de discurso em relação aos linguistas que possamos imaginar e são esses aspectos em comum que dão lugar a AD. As discrepâncias internas, nesse contexto, ficam pequenas perto da grandeza de um olhar interpretativo-crítico, mesmo parecendo perigoso para alguns. Esse foi o olhar que lançamos ao retomar Pêcheux, para mostrar que a sua proposta estará sempre viva, pois para entender o hoje precisamos voltar para entender o ontem.
No Brasil, portanto, o quadro epistemológico de Pêcheux não se mantém em todas as tendências da AD. Mas, mesmo assim, carecemos sempre de revisitar Pêcheux em suas críticas e questionamentos, talvez trilhando caminhos, talvez seguindo discursos[11].
(Re)ler, relacionar, confrontar, (re)construir sempre... esse pode ser o processo pelo qual seguimos em uma (re)construção teórica e metodológica em AD.
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[1] Doutoranda do curso de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFAL.
[2] 1969 foi o ano da publicação da revista Langages, número 13, organizada por Jean Dubois e do Livro Análise automática do discurso, de Michel Pêcheux, ambos dedicados aos estudos da AD.
[3] Esta Tríplice Aliança de que nos fala Pêcheux (1997a) em seu texto “Só há causa daquilo que falha ou inverno político francês: início de uma retificação”, 1978-79, publicado na edição brasileira de Semântica e discurso, tem suscitado inúmeros questionamentos por associar as leituras de Saussure (Lingüística), Marx (Marxismo) e Freud (Psicanálise) na constituição da AD.
[4] Refere-se ao estudo de Saussure (1974) e de seus seguidores.
[5] Refere-se ao estudo de Chomsky (In Lyons, 1970).
[6] Refere-se aos estudos de Benveniste (1995) e Ducrot (1987), entre outros.
[7] Formação social é o espaço para previsão de efeitos de sentido e seu funcionamento está articulado ao funcionamento da ideologia, relacionado à luta de classes e as suas motivações econômicas, conforme Leandro Ferreira, 2005a.
[8] Referimo-nos, por exemplo, ao escândalo Renan Calheiros (2007), à Operação Taturana, à Operação Gabiru (2005), às denúncias de Ronaldo Lessa (2005) entre outros.
[9] Expressão de Pêcheux (1997, p. 157).
[10] Segundo Orlandi (2003, p. 17), “determinar não é antever, não é fixar. Não é, a rigor, nem prever, no sentido conteudístico. É conhecer o princípio de funcionamento, é saber as condições de realização”.
[11] Esta expressão foi inspirada no texto do prof. Helson Silva Sobrinho “Trilhar caminhos, seguir discursos: aonde isso poderá nos levar?”, nos Anais do II Sead, 2005.
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